segunda-feira, 8 de agosto de 2011

ANÁLISE DA OBRA "O OUTRO PÉ DA SEREIA"


O outro pé da sereia, de Mia Couto

O outro pé da sereia, romance de Mia Couto, jornalista, biólogo, ex-militante político e descendente de portugueses, entrelaça história e ficção, remete à tradição e, ao mesmo tempo, lança à África, e a Moçambique, em particular, um olhar absolutamente contemporâneo.

Nesta obra o autor opta por abrir mão de um discurso abertamente centrado em uma abordagem política em prol de uma retórica híbrida e sutil, permeada dos recursos estilísticos e intertextos que, embora atendendo ao gosto do leitor pós-moderno, não se priva de questionamentos acerca dos estereótipos que envolvem a África. O autor vai além de questões político-sociais contemporâneas, partindo da premissa de que é preciso que o africano reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças.

Em O outro pé da sereia, não apenas o choque entre culturas é representado, mas também, e talvez primordialmente, os arquétipos sobre o homem africano. Para tanto, o autor entretece duas histórias paralelas, interligadas por uma personagem. A primeira relata como Mwadia Malunga e seu marido, Zero Madzero, encontram uma imagem de Nossa Senhora abandonada nas imediações do lugar em que vivem; significativamente denominado Antigamente. Mwadia é encarregada de ir a Vila Longe, onde vive a sua família, para providenciar um destino à imagem. Nesta história de retorno à casa natal, nos são apresentados uma série de personagens e seus dramas pessoais. A segunda é uma narrativa histórica, que, em capítulos alternados, conta como a referida imagem de Nossa Senhora chegou a Moçambique, trazida pelo jesuíta D. Gonçalo da Silveira em uma nau portuguesa em 1560.

A imagem, benzida pelo papa, era destinada ao imperador do mítico reino de Monomotapa, a fim de catequizar a região. Os acontecimentos dessa viagem, que em certa medida refletem problemas contemporâneos, envolvem, ainda, o conflito pessoal do jovem sacerdote Manuel Antunes, que será seduzido pelos ritos e ritmos africanos, e a relação de um escravo, Nsundi, com uma dama portuguesa e sua aia de origem indiana.

A guiar-nos pelo seu universo ficcional, há epígrafes que se reportam aos temas cruciais a serem desenvolvidos metaforicamente no romance, como, por exemplo, identidade, memória, permanência, pertencimento e morte, além do posicionamento do continente frente a um mundo globalizado.

No romance, o autor entrelaça diferentes imagens do “outro”, ao relatar, ficcionalmente, a viagem empreendida pelos padres jesuítas. A nau transporta não apenas portugueses, mas escravos africanos e, até mesmo, uma indiana a serviço de uma dama portuguesa, D. Filipa.

Durante a viagem há diversas instâncias em que o choque cultural se manifesta. Boa parte delas gira em torno da imagem da santa, que Nimi Nsundi, o escravo encarregado de guardar a pólvora e gerir os fogareiros, associa de imediato à Kianda.

As águas têm significado especial nas manifestações culturais africanas por remeterem aos mitos de fundação que regem as múltiplas formas de vida. Tal como na cultura cristã, elas fazem parte de um mundo primordial, do qual os seres humanos e o universo descendem. Em Uso e Costumes dos Bantus, Junod (1975, 285-286), antropólogo suíço que em 1895 dirigiu missão de pesquisa em Moçambique, identificou diversas lendas e costumes, dentre eles um princípio feminino da água que justifica sua natureza germinante e, por isso, procriativa.

Em quimbundo, as sereias são chamadas de “ianda”, no singular “kianda”. Ao ver a imagem da santa tombar no lodo, durante o carregamento da nau, o escravo se atira às águas, evitando que fosse tragada. Mais tarde, ao ver D. Gonçalo da Silveira limpando os pés da santa, diz que ela não havia escorregado; que ela queria ficar ali, no pântano. A devoção do escravo à Santa comove o missionário, incapaz de compreender a quem Nsundi realmente cultuava.

Assim como o escravo, Padre Antunes, que acompanha D. Gonçalo em sua missão, experimenta um contato com a santa que é inconcebível segundo a visão cristã. Sonha com uma mulher despedindo-se dele na berna do rio Mandovi. Ela começa a desvencilhar-se de suas roupas, dizendo-lhe que é deste modo que ele há de lembrar-se dela. Angustiado, o padre acorda e, ao dormir novamente, torna a sonhar com a mulher, que lhe diz para tocá-la, pois ela o fará renascer. No sonho, ele afunda, para ser devolvido à tona pela estranha mulher, que, finalmente, se apresenta como Kianda, embora ainda personificando Nossa Senhora. O sonho é o início de uma crise religiosa e identitária.

Padre Antunes decidira ser padre por conta de um amor proibido e abdica da batina por perceber-se um homem diferente, após o contato com os africanos e a paixão súbita pela indiana Dia, também passageira da nau Nossa Senhora da Ajuda. Os indícios dessa mudança espalham-se pelo romance antes de sua enunciação final, como comprova esta passagem:
“Foi então que reparou que estava com as mãos sujas de tinta. Com as mãos negras, ele reentrou no camarote. E com as mãos negras ele se abandonou no rio do sonho” (p.62).
A viagem conduz o padre para longe de sua fé, na medida em que, ao testemunhar as atrocidades impostas aos escravos e os desmandos da igreja católica em Goa, ele começa a duvidar dos preceitos do cristianismo:
A mais cruel das memórias de Manuel Antunes era de um escravo, que, desesperado de fome, cortou a língua e a comeu. Mais do que uma recordação era um símbolo da condição da gente negra: exilada do passado, impedida de falar senão na língua dos outros, obrigada a escolher entre a sobrevivência imediata e a morte anunciada. (p.260)
A visão de um porão abarrotado de cargas, a riqueza destinada aos comerciantes, ocupando o espaço da água destinada aos escravos que ali estavam confinados e a certeza de que estes, em sua maioria, não chegariam ao destino, mortos de sede e fome, fazem com que Antunes confronte D. Gonçalo, perguntando:
“Como iremos governar de modo cristão continentes inteiros se nem neste pequeno barco mandam as regras de Cristo? (p.160)
São as obviedades de um cristianismo parcial que fazem com que Padre Antunes perceba que se está convertendo em um negro:
Até 4 de janeiro, data do embarque em Goa, ele era branco, filho e neto de portugueses. No dia 5 de janeiro, começara a ficar negro. Depois de apagar um pequeno incêndio em seu camarote, contemplou as suas mãos obscurecendo. Mas agora era a pele inteira que lhe escurecia, os seus cabelos se encrespavam. Não lhe restava dúvida: ele se convertia num negro.
- Estou transitando de raça, D. Gonçalo. E o pior é que estou gostando mais dessa travessia do que de toda a restante viagem. (p.164)
A fala de Antunes ecoa uma outra fala, a do escravo do qual recebe posteriormente o nome, Nsundi. Ao perceber que a imagem da santa abrigava uma Kianda, o escravo ficara obcecado pela idéia de libertá-la, serrando um dos pés da imagem. Por esse ato, fora aprisionado no porão e ameaçado de morte. Após um momento de transe, enquanto tocava a mbira, o escravo se atira ao mar. Quem se dá conta do fato é Dia, a indiana, aia de D. Filipa, tão subalterna e excluída quanto ele; com quem fizera amor nas águas, por ser ela dona de um corpo que se incandescia ao contato sexual. Naqueles dias, Dia o havia acusado de ter se submetido não apenas à fé, mas ao modus vivendi dos cristãos. Após a morte do escravo, ela encontra uma mensagem que ele lhe deixou. Nessa carta, dentre outras coisas, ele afirma:
“A verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós” (p.207)
A travessia de Nsundi é de libertação:
Eu lhe mostrei na noite em que fizemos amor: na popa da nossa nau está esculpida uma outra Nossa Senhora. Deixo essa para os brancos. A minha Kianda, essa é que não pode ficar assim, amarrada aos próprios pés, tão fora do seu mundo, tão longe de sua gente. A viagem está quase terminada. Daqui a dias chegaremos a Moçambique, os barcos tombarão na praia como baleias mortas. Não tenho mais tempo. Vão-me acusar dos mais terríveis crimes.Mas o que eu fiz foi apenas libertar a deusa, afeiçoar o corpo dela à sua forma original. O meu pecado, aquele que me fará morrer, foi retirar o pé que desfigurava a Kianda (...) Agora não tenho mais medo de morrer nem de ficar morto. Foi você quem me ensinou: a melhor maneira de não morrer queimado é viver dentro do fogo (p.208).
Nsundi referia-se ao fato de que após a morte do marido, Dia cumprira o ritual que dela se esperava, atirar-se ao fogo. Mas, para espanto de todos os presentes, as labaredas não a consumiram e, incólume, ela atravessara o fogo, sendo, a partir desse dia, excluída do convívio com as pessoas da aldeia, que acreditavam que ela estava possuída por espíritos. Da exclusão à escravatura fora um salto rápido, no qual ela “nem notou a diferença”, pois “no mundo a que pertencia, ser esposa é um outro modo de ser escrava (p.108).

A idéia de libertação perpassa o romance e está simbolicamente inscrita até mesmo na passagem em que o elefante, que tanto impressionara D. Filipa, é atirado ao mar, para aliviar a carga:
Como se tudo isso não bastasse, o mestre ordenou que se deitasse ao mar o elefante enjaulado. Os grumetes, de imediato, empurraram a jaula e a custo de muitos braços a fizeram transpor a amurada. A gaiola de ferro tombou com estrondo sobre as vagas, mas não se afundou logo, como era de se esperar. Ficou vogando entre as altas ondas, em vez de se alarmar, o elefante parecia rejubilar em se ver mergulhado nas águas. Quando, por fim, a grade se afundou, o bicho exibia ainda tal felicidade que era difícil sentir compaixão pelo seu destino. (p.159)
A primeira mensagem de Nsundi a Dia rechaça as acusações que ela lhe faz, condenando-o por ter se convertido aos deuses dos brancos, por ser-lhes submisso:
Não, minha amiga Dia, eu não traí as minhas crenças. Nem, como você diz, virei as costas à minha religião. A verdade é esta: os meus deuses não me pedem nenhuma religião. Pedem que eu esteja com eles. E depois de morrer que seja um deles. Os portugueses dizem que não temos alma. Temos, eles é que não vêem (...) é essa a razão por que D. Gonçalo quer embranquecer a minha alma. Não é a nossa raça que os atrapalha: é a cor da nossa alma que eles não conseguem enxergar. (...) Critica-me por que aceitei lavar-me dos meus pecados. Os portugueses chama isso de baptismo. Eu chamo de outra maneira. Eu digo que estou entrando na casa de Kianda (...) De todas as vezes que rezei não foi por devoção. Foi para lembrar. Porque só rezando me chegavam as lembranças de quem fui. (p.113)
A identidade, o sentido de pertencimento, a autoconsciência chega até ele de modo inverso. É graças aos rituais e padrões da fé que lhe é imposta que ele aprende o que não é, e percebe a verdadeira dimensão do que fora um dia.

A incongruência do discurso cristão é reforçada na conversa entre D. Gonçalo e Dia, quando aquele se surpreende ao vê-la calçar o morto:
- Gostavas muito desse homem?
- Ele era meu...ele era meu irmão.
- Irmão? Muito estranho. Não seria, vá lá, um meio-irmão?
- Para nós não existem meios-irmãos, senhor padre. Irmão é sempre inteiro.(p.205)
Ao desembarcarem em Moçambique e mediante as histórias que ouviram sobre a crueldade dos habitantes do Monopotapa, as reflexões do médico Fernandes, natural de Goa, e do Padre Antunes despertam em D.Gonçalo o firme propósito de enviá-los para serem julgados pela Santa Inquisição. O primeiro ousara afirmar que “quando se inventam assim maldades sobre um povo, é para abençoar as maldades que se vão praticar sobre eles”; o segundo os compara aos próprios portugueses.

D. Gonçalo começa a defrontar-se com a devassidão moral que reina na ilha:
Toda a sua vida imaginara que os demónios moravam no outro lado do mundo: em outra raça, em outra geografia. Durante anos ele se preparara para levar a palavra redentora a essa gente tão diversa. Nos últimos dias Silveira confirmara que o Diabo fazia ninho entre os seus, os da sua origem, raça e condição.(p.255)
O padre vem a descobrir algo ainda mais surpreendente: que lá havia negros que viviam da captura e venda de escravos:
O padre sorriu, incrédulo: escravos? Xilundo explicou-se: ele era escravo, mas a sua família era proprietária de escravos. Viviam disso: da captura e venda de escravos. O pai enviara-o para Goa, na condição de servo, como punição de graves desobediências. O projecto do pai era simples: preparar o filho para herdar o negócio da venda de pessoas. No processo de ser escravo ele aprenderia a escravizar os outros. (p.258)
Os registros encontrados no arquivo de Zimbabwe atestam que D. Gonçalo esteve por sete semanas na corte de Nogomo, período em que batizou o próprio imperador, sua mãe e outros membros da corte, até que comerciantes árabes, receosos da intervenção do padre em seus negócios, convenceram Nogomo de que o jesuíta era um espião e que o ato de batismo não passava de um encantamento malévolo, o que determinou a sua morte, por estrangulamento, em 16 de março de 1561.

O contexto da viagem, eixo temático deste romance, e, principalmente, do intertexto histórico, equivale às viagens interiores das personagens em busca de si mesmas, transcendendo o relato que busca explicar o reaparecimento da imagem em 2002, e remetendo a muitas outras viagens no outro plano da história.

A tessitura ficcional e a figuração da África contemporânea

No plano do mundo contemporâneo, a história é tecida a partir do relato do aparecimento da imagem e da viagem empreendida por Mwadia Malunga, no intuito de encontrar um local para abrigar a santa. O relato entrelaça dois espaços físicos, Antigamente e Vila Longe, que têm papel preponderante no romance.

Desde o primeiro capítulo, a relação entre Mwadia e Zero delineia-se atípica aos olhos do leitor. Ela vive com um homem silencioso, que dizia estar “a esquecer-se” (p.14). Num certo dia, Zero encontra algo que ele descreve como uma estrela que havia caído do céu e, inclusive, queimara-lhe as mãos ao enterrá-la em seu quintal. A suposta estrela nada mais é que uma aeronave em missão de reconhecimento e espionagem que caíra, que, aos olhos do pastor de animais, assumira a forma daquilo que mais se assemelhava à bola de fogo em que se tornara.

Após uma conversa com a mulher, ambos decidem desenterrar a estrela e levá-la para ser enterrada junto ao rio, no lugar do bosque sagrado. Mwadia sabe aquilo não é uma estrela, mas os restos de uma “desembarcação”. No entanto, não deseja desmentir o marido. Naquela noite, Zero sonha que suas mãos se juntavam como duas chamas numa única fogueira, que, em lugar dos dedos, lhe doíam dez pequenas labaredas, até que mãos feitas de água se aproximaram das dele, aplacando a sua dor. Como sonâmbulo, ele repete as palavras da mulher que lhe aparece no sonho.

Essa passagem se reporta a outra de valor idêntico no outro plano da história: à carta de Nsundi, ao relatar a Dia a experiência de rezar:
Acontecia-me a mim o inverso do que lhe sucedeu a si, Dia Kumari. As minhas mãos se juntavam e pegavam fogo. Em lugar de dedos me ardiam dez pequenas labaredas. Era então que outras mãos, feitas de água, se aconchegavam nas minhas e aplacavam aquela fogueira. Essas mãos eram da Santa. E ela me segredava: - Este é o tempo da água. Era a voz da Santa que me percorria por dentro. A voz tomava posse de mim. E agora que lhe escrevi a carta, vejo que esta letra não me pertence, é letra de mulher. Meus pulsos delgados se recolhem ao peso de um cansaço de séculos. Meus dedos não têm gesto, meus dedos são o próprio gesto. Eu sou a Santa. (p.114)
O tempo da água remete a temas e imagens recorrentes na obra de Mia Couto. Ao rio, às margens que estabelecem uma fronteira entre o real e o irreal, ao espaço de Mwadia, que quer dizer “canoa” em si-nhungwé.

Muito embora Mwadia não fosse apegada às crendices, respeitou o desejo do marido de consultar o adivinho Lázaro Vivo, em busca de permissão para penetrar no local onde a estrela será enterrada. A mulher se surpreende ao deparar-se com a “nova versão” do nyanga, que já não portava mais as longas tranças de antes, nem as costumeiras roupas pretas. Ao invés disso, encontra um homem de cabelo curto e penteado de risca, usando uma blusa esportiva, e portando um celular. Lázaro vinha de Vila Longe, onde fora buscar uma tabuleta para pôr na porta de seu “estabelecimento”.

O modo com que Mia configura a personagem é uma visão irônica da prontidão em que a África se atira em direção à idéia de globalização:
- Eu já estou no futuro. Quando chegar aqui a rede, já posso ser contactado para serviços internacionais. Entendem, meus amigos? (p.24).
Em uma entrevista concedida a Celina Martins (2002), Mia Couto expôs a sua visão sobre o choque de culturas em África:
Esse encontro de culturas é sempre, em princípio, traumático, porque não se trata de um encontro, é uma incursão abusiva. O que chega a estas culturas africanas não são as culturas européias. São emanações, representações simbólicas por via da tecnologia. Mantemos ainda a imagem dos primeiros encontros dos descobridores europeus que trocavam umas bugigangas que reluziam diante dos olhos dos africanos. Estamos mais ou menos repetindo esse modelo de relação. Não existe globalização, o que existe é exportação e imposição de sinais, nem sequer são modelos, o modelo fica junto do produtor, os africanos consomem passivamente aqueles sinais mais brilhantes e apelativos.
Nesse sentido, Lázaro personifica, no mundo contemporâneo, e no âmbito do consumo, a repetição de uma relação de dominação que se oculta sob a égide da globalização. É um homem dividido entre as suas crenças e os possíveis benefícios da tecnologia e da modernidade. O romance deixa entrever, no entanto, que seus poderes são reais. É através de Lázaro que o romance introduz pela primeira vez os rumores acerca da morte de Zero.

Após enterrar “a estrela”, Zero descobre a estátua da Virgem, bem como os pertences de Gonçalo da Silveira, que com ela estavam enterrados, e reconhece nela a mulher do sonho. Ao levarem o achado até o adivinho, Mwadia percebe que Zero está sangrando. Para o adivinho, Zero tinha despertado a alma do morto, pois uma pessoa assassinada não descansa como os mortos naturais; vira um gnozi. Dada a impossibilidade, até então não explicada, de Zero voltar a Vila Longe, fica decidido que Mwadia há de fazê-lo.

Ante as muitas dúvidas de Mwadia, Lázaro afirma que ela ficara muito tempo no seminário e acabara por perder o espírito das coisas de seu povo, distanciando-se da imagem de uma africana. Ao que ela responde que há muitos modos de ser africana, perguntando-lhe se ele sabe quem eles são. Nesse ponto, a questão da identidade é retomada, passando a entrelaçar-se com o tema da viagem, resgatando, por sua vez, outros itinerários que se dão no curso de rios reais e ficcionais.
Vila Longe se revela como a Macondo de Gabriel García Márquez, elevando a realidade à categoria onírica, sintetizando os mais diversos elementos: a história, a natureza, os problemas sociais e políticos, a vida quotidiana, a morte, o amor, as forças sobrenaturais, o humor e o lirismo.

Conforme afirma o narrador, “a viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessa as nossas fronteiras interiores” (p.65). A métafora mais importante do romance é o rio, a evocação implícita da sua terceira margem. A caminho, Mwadia reflete sobre a própria vida:
Mas a vida de Mwadia fez-se de contra-sensos: ela era do mato e nascera em casa de comento; era preta e tinha um padrasto indiano; era bela e casara com um marido tonto; era mulher e secava sem descendência (p.69).
Em Vila Longe, ela se reencontra com o seu passado, com a mãe que sempre se lamentara de sua partida; com o padrasto que vivia em “trânsito nominal” por acreditar que, ao trocar de nome anualmente, acabaria por viver mais; com as crendices de seu povo e com a novidade da chegada de um casal de americanos, que, pretensamente, viria estudar antigas histórias de escravos.

As relações atribuladas com Constança, sua mãe, que atribui à sua partida a sua crescente abundância de carnes, entabulam uma reaproximação dolorosa, permeada de descobertas, como a morte de Tia Luzmina, irmã de seu padrasto.

Em suas deambulações pela cidade, à cata de suas memórias, Mwadia percebe situações anormais: cães assustados à sua passagem; pessoas cujo reflexo ela é incapaz de ver no espelho; a sensação de irrealidade ao contemplar o padrasto que a esperava do lado de fora da alfaiataria; a sua surpresa ao ouvir o chefe da estação afirmar que ela estivera ali na semana anterior, quando partira há tantos anos.

A chegada dos americanos – na realidade, afro-americanos – traz ao romance um tom de comicidade, uma vez que Mia Couto retrata com extrema ironia a ansiedade do povo em inventar uma África ao gosto do estrangeiro. A comunidade reúne-se para forjar uma memória sobre a escravidão, já relegada ao esquecimento pelas contradições que traz em sua própria constituição, como a captura e venda de escravos, realizadas pelos próprios negros, os vangunis.

A estada dos americanos passa a ser a grande oportunidade de fonte de renda para uma cidade desolada e entregue ao passado. Nas discussões que se sucedem, Mia deixa entrever algumas questões que lhe parecem cruciais, como, por exemplo, um desfraldar de bandeiras apoiado na questão da negritude, na busca de uma África mítica, que, de certa forma, ignora a realidade da Moçambique contemporânea, fruto de uma intensa miscigenação. O desejo patético do afro-americano que quer ser africano é ironizado no diálogo a seguir:
– O que se passa, mano, uma tontura?
– Eu só queria beijar a nossa mãe...
– Qual mãe?
– Queria beijar o chão de África...
– Ora o chão, pois o chão de África, mas veja, meu brada, o melhor chão para ser beijado é noutro local que lhe vou indicar, este chão, aqui, é melhor não...(p.138)
A relação que o americano Benjamin estabelece com a África é construída através do conceito intermediário de raça; conceito este que ele adquiriu de uma matriz cultural euro-americana. Em conseqüência, suas respostas às questões da identidade africana encontram-se enraizadas na visão arquetípica e romântica que foi o ponto de partida para os africanos que assumiram a bandeira de uma nacionalidade negra pan-africana.

Ao satirizá-lo, Mia Couto tenta encontrar o espaço de construção de uma identidade moçambicana. Conforme afirma Appiah (1997, 115), a relação dos escritores africanos com o passado da África é uma trama de ambigüidades delicadas, “se eles aprenderam a não o desprezar nem ignorá-lo; ainda estão por aprender a assimilá-lo e a transcendê-lo”.

Mia não deixa incólume a ação internacional em prol dos povos africanos. No romance, os afro-americanos sobrevivem por meio de contas superfaturadas para ONGS, como a Save Africa Fund, uma associação religiosa afro-americana, responsável pela verba que o casal trazia:
Espalhou gorjetas pelos funcionários, polícias, lavadores de viaturas e carregadores de malas. Cada desembolso era cuidadosamente anotado numa pequena agenda em cuja capa se grafava a letra de imprensa: “Project budget”.(p.139)
A percepção aguda de Mwadia lhe faz pensar que “diversas viagens se cruzavam, a um só tempo, naquela casa”: “os americanos atravessavam os séculos e os mares onde se esbatera a sua identidade” e “ela viajava no território em que o tempo nega a converter-se em memória” (p.145). Porém o esquecimento era uma condição necessária: “O tempo existe para apagar o tempo”. (p.136)

Em entrevistas concedidas recentemente, durante sua passagem pelo Brasil, Mia Couto disse pretender ironizar e questionar alguns arquétipos sobre o homem africano, principalmente a idéia de pureza ou autenticidade, bem como os lugares-comuns em sua representação: as crendices, a feitiçaria e a sexualidade; como nos mostra o exemplo a seguir:
– Agora que estou no fim da minha vida, posso confessar: as vezes em que eu fiz amor com maior paixão foi com mulheres.
– A mãe fez amor com mulheres?
Mwadia estava aterrada. Uma mãe não fala de assuntos destes. Muito menos confessa algo tão íntimo, tão chocante.
– Você tem que saber isto, minha filha.
– Fomos ensinadas a esperar pelos homens. Mas essa espera demora mais que uma vida. Ninguém espera tanto assim.
– Estou espantada, admitiu a brasileira.
– É o que lhe digo: os homens daqui são péssimos amantes.
– Não é isso que consta lá no Brasil.
– Isso é porque não pedem a opinião das mulheres. (p.178)
A questão da feitiçaria é tematizada em sua relação com as transformações sociais, uma vez que, graças a questões econômicas, perde a sua característica religiosa e passa a fazer parte de uma pantomima comercial. Mwadia é convocada a encenar transes, visitas de espíritos, para impressionar os americanos. Para torná-los convincentes, de dia lê os velhos documentos de D. Gonçalo, encontrados com a santa; à noite vai ao quarto dos americanos e lê os papéis do casal, além de visitar a biblioteca que o padrasto havia herdado. O efeito da encenação é imediato:
“Como Casuarino previra, os americanos ficaram fascinados com a sessão de transe (...) Eis África autêntica, repetiam, deleitados” (p.236).
Mas ao envolver-se no engodo, Mwadia faz uma importante descoberta. “Agora ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma” (p.238). Dali por diante, Mwadia e sua mãe passam a fazer visitas prolongadas ao sótão, onde sessões de leitura devolvem à Constança a sensação de vida.

Em seus transes fictícios, Mwadia traz à baila questões que desafiam a busca do americano pelas próprias raízes e aprofundam tematicamente a miscigenação, que, pra Mia Couto, está no âmago das discussões sobre a identidade do moçambicano:
De olhos fechados, esticou o braço na direcção do afro-americano e clamou;
– O senhor, Benjamin Southman, é um mulato.
– Mulato, eu?
O ar ofendido de Benjamin suscitou a intervenção de Casuarino. Ora, ele não se magoasse. E acrescentou: Afinal, desde Caim somos todos mulatos. O empresário elaborava com eloqüência: havia a globalização. Ao fim ao cabo, vivíamos a era da mulatização global. E, isso, poucos entendiam. Em terra de cegos quem tem um olho vê menos do que os que nada enxergam. (p.267)
Ao ficar sabendo, em mais um transe de Mwadia, que sua ancestral era a indiana Dia e não uma africana genuína, Benjamin fica transtornado e é levado à casa do adivinho Lázaro, já devidamente prevenido por Casuarino de que devia se desvencilhar de todos os seus artefatos tecnológicos, assumindo uma aparência primitiva: “Tudo selvagem, nada de modernices” (p.270).

Apesar dos pequenos deslizes do adivinho, que, esquecido de seu papel, dirige-se ao americano em inglês, inquirindo sobre os dólares, este parece impressionar-se com a idéia de ser batizado e ter um novo nome, um nome africano. No dia seguinte, batismo marcado, o americano desaparece, deixando alguns dólares em troca de seu novo nome: Dere Makanderi.

A fuga do americano precipita uma série de acontecimentos e revelações. Rosie acaba por revelar que ela e o americano não são casados, que a busca do historiador americano por suas origens era verdadeira, mas que, na realidade, não passavam de uns trambiqueiros, que viviam de cambalachos. Mas essas não são as únicas revelações a serem feitas.

As palavras do barbeiro, o único a se recusar em participar das encenações para os americanos, pontilham todo o romance, como ditados oriundos de uma sabedoria primitiva. Este é um procedimento comum a outros romances do autor, assim como o itálico para discriminar a fala das personagens, o uso dessas falas como epígrafes dos capítulos, a dimensão sagrada da casa, da terra, do rio, do tempo. Neste romance em particular, a voz narrativa adere ao mesmo discurso mágico das personagens, criando sentenças que se assemelham a ditados milenares.

É o barbeiro quem afirma que é necessário “esquecer para ter passado, mentir para ter destino” (p.64). No momento em que se dá conta de que não há como fugir do passado, de que a história se repete, ele aconselha a Mwadia a afastar-se de Vila Longe, perguntando-lhe se nunca ouvira falar de terras que foram erradicadas, que deixaram de constar. Aos poucos, as peças do imenso quebra-cabeça começam a se encaixar.

Por meio de Matambira, ela descobre que a razão de sua mãe ter engordado tanto não fora o desgosto com a sua partida, mas as repetidas surras que levava de Jesustino, o padrasto. Ao inquirir a mãe acerca da revelação, outras mais surgem: seu marido Zero estava realmente morto, conforme várias personagens sugerem ao longo do romance; o padrasto o havia assassinado a facadas, por ciúmes de Mwadia. O romance sugere vagamente o fato de que ela havia sofrido abuso sexual por parte do padrasto, que já tivera uma relação incestuosa com a própria irmã.

Pouco a pouco, Mwadia vai sendo confrontada com o passado que buscara esquecer. Constança determina a ação necessária à libertação de Mwadia: colocar a foto de Zero na parede dos ausentes; aceitar a sua morte.

A viagem de regresso equivale ao retorno aos labirintos da alma, pois, conforme lembra o narrador, “a viagem termina quando encerramos as nossas fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar” (p 329).

Colocando a imagem da santa junto ao tronco de embondeiro, ela segue viagem pelo rio. O rio dos seus medos e dos seus sonhos, o rio que leva ao passado, mas também ao destino. À sua chegada, aguarda-lhe o marido morto, e fica-lhe a certeza de que Vila Longe e seus habitantes há muito haviam deixado de existir:
Como aceitar que Vila Longe já não tinha gente, que a maioria morreu e os restantes se foram? Como aceitar que a guerra, a doença, a afome tudo se havia ravado com garras de abutre sobre a pequena povoação? Vila Longe cansara-se de ser mapa. Restavam-lhe as linhas ténues da memória, com demasiadas campas e nenhuns viventes. (p.330)
À noite, ao olhar para o céu é como se este se transformasse na parede dos ausentes em Vila Longe. Nela surgem todos os rostos, seu padrasto suicida, a tia Luzmina, Zeca Matambira, todos. Até mesmo seu verdadeiro pai, que passara a vida como homem e morrera como mulher. Sua mão ergue-se para ajustar à parede um último retrato, a foto do último ausente: Zero, que no leito dormia, sonhando e balbuciando que havia acabado de enterrar uma estrela. Seu último rumo é o rio. O rio do qual era canoa, ao qual se entregaria em definitivo.

Ao longo do romance, percebe-se claramente a imbricação entre o real e o imaginário, entre o fantástico e a realidade, que, segundo o próprio autor, é algo completamente presente na realidade moçambicana, que é regida segundo uma outra ordem de racionalidade.

Ao criar um mundo ficcional em que só o impossível é natural, Mia Couto revisita suas raízes, provando que a palavra é o lugar da construção da identidade, pois é onde a memória é preservada. Ao invés de dar três voltas à volta da “árvore do esquecimento”, como as personagens do romance, o autor opta por outro tipo de questionamento: compete ao homem decidir o que deve ou não ser lembrado.

O outro pé da sereia é, afinal, o que propõe ser a partir do contexto histórico que lhe serve de base: um livro de viagens. Viagens entrecruzadas, nas quais a questão da identidade não é ponto de partida ou de chegada; é o caminho.


Disponível em: http:// www.passeiweb.com/na_ponta.../o_outro_pe_da_sereia

ANÁLISE DA OBRA "CIDADE DE DEUS"


Cidade de Deus, de Paulo Lins

Análise da obra

Neste seu romance de estréia, Paulo Lins faz um painel das transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90. Para redefinir a situação do lugar onde cresceu, Lins usa o termo "neofavela", em oposição à favela antiga, aquela das rodas de samba e da malandragem romântica.

O livro se baseia em fatos reais. Grande parte do material utilizado para escrevê-lo foi coletado durante os oito anos (entre 1986 e 1993) em que o autor trabalhou como assessor de pesquisas antropológicas sobre a criminalidade e as classes populares do Rio de Janeiro.

Cidade de Deus é um romance que traz fortes traços culturais de um povo predominantemente negro, cultuador da Umbanda e do Candomblé, devoto de São Jorge, amante do carnaval e dos ritmos brasileiros como o samba de partido alto, hoje mais conhecido como pagode; tradicionalmente freqüentador de clubes e bares, da praia do final de semana, da culinária associada às comidas fortes e ao consumismo popular por influência da mídia.

Foco narrativo

Escrito em terceira pessoa, Cidade de Deus é extensa narrativa que pode ser analisada como romance naturalista, quando descreve o modo de vida de seus personagens. A infância dos bandidos, nas brincadeiras de pipa, pião, futebol, nos banhos de rio e no contato com a natureza, marca esse naturalismo e depois, na maturidade do crime como única forma de sobrevivência, é a violência que comanda os destino, imperando a lei do mais forte, como se todos fossem animais vivendo numa selva urbanizada e primitivamente civilizada. A animalização está presente no modo de agir dos bandidos: o consumo de drogas, o tipo de alimentação, o prazer do sexo, a organização de suas casas e a forma naturalmente cruel como se matavam uns aos outros.

Linguagem

Outro caráter que podemos sentir em todo o livro é o realismo. O autor parte de fatos reais para estruturar o romance a adapta sua linguagem através de minuciosa pesquisa lingüística (diálogos, termos, gírias, palavrões) que permite, juntamente com a realidade dos fatos, apresentar ao leitor uma trama independente de qualquer sentimentalismo que possa amenizar a crueza imutável dos acontecimentos.

Muito definido também é o caráter expressionista. O exagero e a insistência da narrativa em descrever pormenores e detalhes dos crimes é característica que Paulo Lins mantém durante todo o livro e que destaca a forma grotesca pela qual o autor valoriza a violência e o suspense em cada gesto dos personagens.

Ainda podemos destacar o caráter de transformação que, ajudado pelo desenrolar dos fatos através de um longo período de tempo, marca a mudança de todos os componentes da trama. O conjunto habitacional transforma-se em favela, as crianças se transformam em bandidos, a polícia se corrompe, a natureza é poluída, os valores sociais se modificam etc.

Estrutura

Uma mescla de estilos é que mantém a estrutura do romance em constante tensão. A realidade se contrapõe à ficção, a natureza à urbanização, a civilização organizada à anarquia, a ambição do poder à simplicidade da vida e o progresso à decadência.

Tecnicamente o romance divide-se em três partes (capítulos). A narrativa tem estilo cinematográfico, em que o detalhamento das cenas é a maior característica. Há constante fragmentação que interrompe os casos narrados e também insere descrição dos personagens que entram na trama. Mesmo assim o romance segue uma cronologia linear em relação ao tempo real dos acontecimentos, com exceção de alguns flashbacks.

A primeira parte, A História de Cabeleira, narra a ocupação da Cidade Deus e a formação das quadrilhas. A ambição é individual, a relação com as drogas é mais no sentido do próprio consumo, e o que move a criminalidade dos bandidos é a vontade de fazer um grande assalto e viver o resto da vida nos moldes ideais dos burgueses. A participação da polícia é efetiva, que de forma violenta e implacável procura eliminar os criminosos. Destaca-se ainda o amor e o casamento. A segunda parte, A História de Bené, tem seu maior enfoque na busca do comando da favela por meio do tráfico de drogas e na nova geração de criminosos que dão proteção à comunidade. Também se destaca a ascensão dos cocotas como uma tribo social de características marcantes, a corrupção do sistema carcerário e a maneira de viver dos homossexuais. A terceira e última parte, A História de Zé Pequeno, traz a guerra propriamente dita e a seqüência interminável de sucessores no comando do tráfico. Emerge a figura do justiceiro implacável, Manoel Galinha, que, no entanto, não modifica o destino da marginalidade.

Personagens

Cidade de Deus envolve grande número de personagens. Os protagonistas se sucedem de acordo com o sucessivo e interminável número de mortes. Diante dessa característica, toda a trama é protagonizada principalmente pela própria Cidade de Deus. Por isso destacaremos somente os três principais, até porque o perfil descritivo da maioria dos protagonista se assemelha com o deles:

Cabeleira: Era negro de família humilde. Seu pai era alcoólatra e a mãe, prostituta. Elegante no andar, bom porte físico, bem sucedido com as garotas, habilidoso capoeirista, Cabeleira representa o anti-herói, surreal e lírico. Não estupra, respeita a comunidade e a rapaziada do conceito. É com ele que começa a respeitar os limites da favela para se assaltar. Cabeleira, no entanto, é cruel e maldoso com seus inimigos, mata sem piedade e sempre se vê protegido por seus exus e pombagiras.

Bené: É cria da Cidade de Deus. Sua crueldade fizera com que herdasse, junto com Zé Pequeno, todo o poder do tráfico na favela. Admira os cocotas e, depois que se enturma com eles, passa a se vestir só com roupas de grifes famosas e tatua um enorme dragão no braço. É negro, baixinho e gordinho. Não é feliz no amor e sonha em ganhar muito dinheiro para fundar uma comunidade alternativa.


Zé Pequeno: Também negro baixinho e gordinho, é o mais feio dos bandidos. Sua crueldade é a mais temível de toda a narrativa. Sonha em ser dono da Cidade de Deus e para isso não poupa ninguém. Constantemente coloca seus amigos uns contra os outros. A risada fina, estridente e rápida, acompanha suas ações de crueldade e é sua marca registrada. Totalmente infeliz no amor, estupra a namorada de Manoel Galinha, fato que gera a guerra na favela. Representa o poder do submundo do crime. É o que mais enriquece com o tráfico e que comanda a favela por mais tempo, inclusive de dentro da prisão. Seu fim finaliza o romance mas não finaliza a história da Cidade de Deus.

Enredo

Cidade de Deus é uma história de guerra. Não só a guerra na favela, mas uma constante disputa por poder, ascensão social e dinheiro. O romance toma variadas direções e tendências estéticas, ora explícitas na narrativa, ora simplesmente sugeridas no desencadear dos fatos. É o fruto de exaustiva pesquisa na qual Paulo Lins protagoniza uma favela como metáfora da sociedade carioca e da sociedade brasileira.

É importante destacar a relação dos moradores de Cidade de Deus com a morte. A importância de um bandido, por serem eles que faziam as leis de proteção à comunidade, era medida pelo número de pessoas que iam ao seu enterro ou pelo silêncio diante de alguma vítima de sua crueldade. Era o respeito a essas regras que fazia com que houvesse a paz.

A História de Cabeleira

Inicia-se o livro com Busca-Pé e Barbantino se drogando e a narrativa descrevendo as características físicas e particulares do empreendimento imobiliário que foi cedido para famílias de desabrigados e sem-teto que passavam necessidade no Rio de Janeiro. "Por dia, durante uma semana, chegavam de trinta a cinqüenta mudanças, do pessoal que trazia no rosto e nos móveis as marcas das enchentes.(...) Em seguida, moradores de várias favelas e da Baixada Fluminense chegavam para habitar o novo bairro (...) Do outro lado do braço esquerdo do rio, construíram apês..."

Entre os casos que se sucedem, intercala-se a descrição de Cabeleira, Marreco, Alicate, Salgueirinho, Pelé e Pará. Esses protagonizam a seqüência de crimes e assaltos e a disputa por melhores roubos e assaltos sempre a espera "da boa" que lhes possibilitará mudar de vida. Na divisão de poderes, Lá em Cima: Cabeleira, Marreco e Alicate e Lá em Baixo: Salgueirinho, Pelé e Pará.

A perseguição da Polícia aos bandidos é protagonizada pelo PM Cabeção e pelo detetive Touro. Astutos, conheciam o conjunto habitacional e eram tão cruéis quanto os bandidos; além de os conhecerem bem, sempre estavam na espreita dos marginais, andando fortemente armados e decididos a prender ou executar os inimigos.

Cabeleira tem uma queda por Cleide, mulher de Alicate, mas depois de conhecer Berenice, apaixona-se pela cabrocha e passa a viver com ela. Lúcia Maracanã é parceira nas fugas e sempre recebe os marginais com carinho e dedicação. Bá é dona de uma boca de fumo e, sempre protegida, abastece os bandidos de droga.

Os roubos que começam na Cidade de Deus, aos caminhões de gás, extrapolam os limites. Cabeleira era sempre decidido a roubar e nunca ficava sem dinheiro, e sempre "na ânsia de rebentar a boca".

Entram na trama Dadinho, Cabelinho Calmo, Bené e Sandro Cenourinha, ainda crianças, na iniciação da vida do crime já liderando seus bandos. Enquanto isso, Cabeleira se impõe, executando um delator e o detetive Touro continua na procura dos criminosos. Cabeleira, Carlinho Pretinho, Pelé e Pará planejam um assalto sensacional a um motel. Resolveram levar Dadinho, que na fuga desaparece, mas não morre e volta a cena mais tarde. Touro e Cabeção trocam tiros com todo mundo as anciã de pegar alguém.

A seqüência de crimes não se reduz aos protagonistas da trama. Casos absurdos são descritos, como o do marido traído que esquarteja vivo o filho que não era dele, entregando-o à sua mulher numa caixa de sapatos e do outro cortou a cabeça do "Ricardão" e entregou-o para a mulher numa sacola plástica.

A violência se materializa no dia-a-dia e vai se formando o tecido cultural das crianças de Cidade de Deus. Os meninos dividem seu tempo entre heróis da TV, pipas, brincadeiras, banhos de rio, aulas e a iniciação ao consumo de drogas.

A vida do crime continua, em paralelos aos costumes da comunidade, aos bailes, pelas biroscas, pelas vielas de Cidade de Deus e suas particularidades. Num desses bailes, Salgueirinho, que era galã disputando a tapa pelas meninas, volta para casa com uma cabrocha que morava nas Últimas Triagens e pela manhã, quando sai para a farmácia, é atropelado e morre. Diz-se que é por causa da macumba de uma mulher abandonada por ele. Seu enterro foi prestigiado por mais de duas mil pessoas e todas as suas mulheres compareceram.

Touro elimina um ex-policial e cruza com um sargento do Exército que acabava de ver Pelé e Pará assaltando um ônibus. Eles perseguem os bandidos e após a captura executam os marginais. A narrativa descreve a vida dos dois e como foram parar na Cidade de Deus. A tensão da trama é forte e até a matança de um gato para fazer "churrasquinho de feira" é descrita de maneira impressionante, dado o suspense da narrativa.

Jorge Nesfato tem seu fim como condenado por treze crimes que não cometeu, além de ser condenado pela mulher. Marreco é perseguido e apanhado por Cabeção. Acaba conseguindo fugir, mas na fuga uma bala perdida mata uma criança, colocando a comunidade em desespero. A operação de tráfico de drogas é comandada por Damião e Cunha. Damião mata Cunha para obter poderes e para ficar com Fernanda, que é mulher de Cunha. Como Fernanda não aceita, ele a espanca e some para nunca mais voltar.

Marreco apresentava comportamento esquisito: enlouquecia os vizinhos, repetindo que era filho do Diabo; estuprou uma paraibana casada e queria matar qualquer um que atravessasse seu caminho. Laranjinha não pára para falar com ele e só por isso é jurado de morte. Mesmo assim executa um assalto de sucesso e como Cabeleira se deu bem, assaltando o pagamento de uma construtora, eles vão juntos comemorar. A comemoração dura vários dias de intenso consumo de drogas. Depois da comemoração, Marreco volta a estuprar a paraibana que não oferece resistência, mas o marido surpreende Marreco e mata-o com uma facada. Ao enterro somente Lúcia Maracanã compareceu, porque seus amigos temeram o cerco da polícia.

Alicate pensa em mudar de vida. Acaba deixando a Cidade de Deus e tornando-se evangélico da Igreja Batista, em cujo templo trabalha e prega o evangelho. Cabeleira procura Madrugadão, seu novo parceiro, que lhe diz que Cabeção está cada vez mais ofensivo no cerco contra ele. Cabeleira vê em sonho seus amigos mortos, Marreco, Salgueirinho, Haroldo, Pelé e Pará, com a mesma indumentária e em meio a muito sangue. Marreco no sonho aconselha-o a matar Cabeção , se não quiser ir para a companhia deles no outro plano.

Cabeção executa Wilson Diabo e jura que o próximo é Cabeleira. Eles trocam tiros pelas ruas de Cidade de Deus, mas nenhum consegue atingir o outro. Marimbondo empresta uma pistola 45 e um fuzil para Cabeleira igualar-se a Cabeção. Ari, o irmão homossexual de Cabeleira , aparece e Cabeleira que não admite ter um irmão assim, se atem em se livrar do irmão para que ele não fique em Cidade de Deus. Enquanto Cabeção é implacável em sua caçada, a narrativa descreve sua vida, seu comportamento e seu ingresso na polícia. Ele continua a perseguir Cabeleira pelas vielas e acaba sendo surpreendido pelas costas por um vingados que o mata. Cabeleira fica sabendo do assassinato, mas nem sai de casa.

A narrativa volta ao início e conta a história de Busca-Pé e Barbantino, seus sonhos e a maneira de vida dos cocotas e playboys dos subúrbios e favelas cariocas. Da mesma forma é contada a história de Dadinho, como sua mãe ganha uma cadeira de engraxate a qual lhe servia para fazer assaltos e como ela descobre que Dadinho se inicia na vida do crime.

"...acordou Dadinho a tapas e chorando perguntava com o revólver nas mãos:
- Pra que isso?
- É pra assaltar, matar e ser respeitado!"

Volta à seqüência do assalto ao motel, Dadinho encontra Cabeleira que promete uma grana pelo serviço do assalto e Dadinho pede um revólver. Vão à casa de Marimbondo e são convidados a para novo roubo. Cabeleira não vai. Dadinho e Marimbondo fazem o assalto e se dão bem. No dia seguinte são noticias nos jornais. Empolgados, tramam o próximo crime, desta vez com Bené incorporado ao grupo.

O detetive Touro procura Marimbondo em casa onde se homiziavam, mas eles estavam assaltando uma gráfica. O insucesso revolta o detetive. "Pensava com brutalidade em tudo o que ocorria, porque era bruto, seu nome era Touro, sua fala, suas idéias. A vontade de querer mandar em tudo sempre lhe fora pertinente." Ainda continua rondando a casa de Marimbondo, enquanto os bandidos se escondem no mato após o roubo da gráfica.

Cabeleira se cansa de ficar entocado com os colegas e resolve sair sozinho. Queria ver os amigos de Cidade de Deus . A narrativa descreve uma manhã calma e silenciosa."...então por que aquela aflição? Por que aquela vontade de voltar para perto dos amigos? Aquela sensação de vazio lhe trazia sobressaltos, frios na espinha.(...) A qualidade da paz era superlativa também na Rua do Meio e fazia crescer aquele temor, temor do nada.(...) Não sabia o porquê, mas pequenos pedaços de sua vida vinham-lhe repentinamente de modo sucessivo. As mais vivas cores do dia tornaram-se significantes de significados muito mais intensos, confundindo a sua visão. O vento mais nervoso , o sol mais quente, o passo mais forte, os pardais tão longe dos homens, o silêncio inoperante, os piões rodando, os girassóis vergando-se, os carros mais rápidos e a voz de Touro agitando tudo: - Deita no chão, vagabundo! Cabeleira não esboçou reação. Ao contrário do que se esperava Touro (...) Talvez nunca tenha buscado nada, nem nunca pensara em buscar, tinha só de viver aquela vida sem nenhum motivo que o levasse a uma atitude parnasiana naquele universo escrito por linhas tão marginais. (...) Aquela mudez diante das perguntas de Touro e a expressão de alegria melancólica que se manteve dentro do caixão." A morte de Cabeleira fecha o primeiro capítulo.

A História de Bené

Inicia o segundo capítulo a narrativa descrevendo a herança do tráfico de drogas na Cidade de Deus e o crescimento de Dadinho no mundo do crime. Dadinho se consultava na Umbanda e assaltava cada vez mais. Apesar disso, lá em cima os traficantes eram mais respeitados e isso o feria. Morre o traficante grande e Dadinho toma a boca de seu irmão.

Na Cidade de Deus há mudanças no poder, que agora gira em torno do tráfico de drogas e os bandidos cada vez mais precocemente se destacam pela sua crueldade. Paralelo há um destaque para a vida dos cocotas e da "rapaziada do conceito", grupos que gravitam por fora da violência exacerbada dos bandidos e traficantes, atuando como coadjuvantes na ação dos quadrilheiros. No crime começam a destacar-se Bené e Zé Pequeno.

Enquanto a trama centra-se na história dos cocotas, suas aventuras, as brigas nos bailes, os festivais de rock, o amor de Thiago por Angélica e seu duelo com Marisol por causa da cabrocha, Pequeno dá a boca Lá de Cima para Sandro Cenoura (já crescido) depois de matar os comandantes do tráfico. Logo após planeja dividir tudo só com Bené. "Seu sonho de ser dono de Cidade de Deus estava ali, vivo, completamente vivo, realizado (...) Traficar, era isso que estava na onda, isso que estava dando dinheiro."

Com a morte de Cabeleira, seu irmão Ari, que atendia pelo nome de Soninha, retorna à Cidade de Deus e tem sua história de ódio com Pouca Sombra e de amor com Guimarães, que abandona a mulher para ficar com o homossexual. A narrativa descreve o submundo do homossexualismo, como eles vivem e se relacionam. Enquanto isso, uma sucessão de mortes é destacada na trama: Pequeno ameaça Bigodinho, que mata Jorge Gato e é morto por Pequeno, contrariando Acerola. Cabelo Calmo é preso quando completava dezoito anos. É encaminhado ao Presídio Lemos de Brito, onde é transformado em "mulherzinha" do xerife do presídio, um bandido que mantinha o comando interno da cadeia. Ao sair da prisão é recebido por Pequeno e Bené, mas não lhes revela sua vida no cárcere. Eles tomam a boca de Cenoura e, a pedido de Bené, Pequeno não o mata.

A narrativa descreve fatos e costumes do Presídio de Ilha Grande e o mecanismo da corrupção no sistema. Marimbondo, que chegara ao presídio com a mesma valentia com que se destacava na favela, é brutalmente assassinado a facadas. Em Cidade de Deus, Bené se enturma e "conquista" o cocota Daniel, a quem pede que lhe compre muitas "roupas de grife" para andar na moda dos cocotas cariocas. " - Sou palyboy! - dizia Bené a todos que comentavam sua nova indumentária. Tatuou no braço um enorme dragão soltando labaredas amarelas e vermelhas pelo focinho, o cabelo ligeiramente crespo foi encaracolado por Mosca." Com sua Calói 10 ia à praia todas as manhãs, tirando a maior onda da rapaziada. No seu envolvimento com a cocotada, acaba entrando na briga de Thiago e Marisol, por causa de Angélica. Faz com que os dois amigos façam as pazes e tudo fica bem.

A boca-de-fumo de Ari do Rafa, no morro de São Carlos, é atacada pela quadrilha de Pequeno e Bené. Simultaneamente, Nego Velho e Metralha assaltam uma rica residência. A quadrilha captura a boca de Ari do Rafa e todos, inclusive o Ari, são mortos e enterrados numa só cova. Carlinhos Nervo Duro, que dividia o poder no São Carlos com Ari do Rafa, toma partido e ataca a quadrilha de Pequeno e Bené. No tiroteio, novamente os bandidos do São Carlos levam a pior e somente Nervo Duro escapa com vida. Enquanto isso, Nego Velho e Metralha são perseguidos pela polícia em Cidade de Deus, mas escapam e dividem o roubo, em grande almoço, a quadrilha toda reunida. A polícia aparece, mas reconhece que não há condições de enfrentamento e passa reto. Manguinha e seus amigos voltam para a favela após uma série de assaltos espetaculares, disfarçados de médicos. O tráfico de armas junto à polícia e às forças armadas se intensificam e cresce a troca de donos das bocas-de-fumo. Conforme as mortes acontecem, seus responsáveis assumem a liderança das bocas e assim sucessivamente.

Enquanto Cabelo Calmo é preso novamente, Pequeno e Bené assumem o poder de Cidade de Deus e passam a ditas as leis da favela. São convidados a ajudar Voz Poderosa, compositor da Portela, na escolha do próximo samba da escola.

Bené vai para casa e chora com sua família contando seu sonho: "...pediu desculpas ao irmão, falou que ia ficar só mais um tempo na vida do crime para poder comprar um terreno e fundar sua sociedade alternativa."

Enquanto isso, Touro intensifica a perseguição a ele e a Pequeno. No cerco aos marginais, os policiais Lincoln e Monstrinho prendem Bené; Touro é afastado da Polícia por ter enforcado um trabalhador numa cela.

Preso, Bené pensa que sua vida poderia ser diferente e também que era apaixonado por Patricinha Katanazaka. Espada Incerta sai da prisão e jura para Cenoura que vai matar Bené. Vai para Realengo, vende um quilo de maconha e na comemoração fica bêbado jurando de morte toda a família de Bené. Acaba perdendo o dinheiro do tráfico e perseguido pela polícia; sua própria mãe é que morre enquanto ele é preso.

A cocotada inventa de assaltar um açougue para dar uma festa e Daniel é a atração principal da festa após uma fuga espetacular do carro da polícia que dá um flagrante durante o assalto. A narrativa enfatiza a natureza, que ameniza os sofrimentos do povo de Cidade de Deus.

Bené sai da prisão prometendo mandar todo mês uma quantia ao delegado. De volta à favela, poupa a vida de Butucatu, que deveria ser executado por Pequeno, pelo estupro e morte de sua ex-mulher. O criminoso não respeitou os limites da favela e por isso foi espancado pela quadrilha de Pequeno. Bené tem uma decepção com Mosca, sua mulher, que anuncia uma gravidez e decide interrompê-la. Na operação de aborto, Mosca morre.

Após ser espancado, Butucatu planeja matar Pequeno e pouco tempo depois, ainda com dores, parte para o ataque atingindo fatalmente o abdômen de Bené, que estava em companhia de Pequeno naquele momento. Pequeno também foi baleado, mas ainda teve forças para trocar tiros com Butucatu e sobreviver. O velório de Bené foi um evento à parte. "E uma lua redonda, claríssima, encantou ainda mais o eterno mistério que a noite sempre traz, e o enterro daquela manhã de sol intenso foi o maior que já se viu."

A história de Zé Pequeno

O terceiro capítulo começa com a inútil caçada de Pequeno a Pança e Butucatu, dois bandidos que conhecem todos de Cidade de Deus e juram em segredo matar todo mundo e a consumação do romance de Ari, o Soninha, com Guimarães, que enjoou da mulher.

Zé Pequeno procura uma loira por quem se apaixonou. Mexe com ela e, desprezado, estupra-a violentamente na frente do namorado. Depois procura o namorado, Mané Galinha, em sua casa para matá-lo e, não o encontrando, mata seu avô. Isso causa uma enorme revolta em Galinha, que parte para a vingança obstinadamente. Galinha havia servido na brigada de pará-quedistas do Exército e tinha uma enorme habilidade com armas, além de ser forte e atlético. No primeiro confronto Galinha mata dois quadrilheiros com extrema rapidez e crueldade. "Era a primeira vez que uma pessoa atirava em Pequeno na favela, matava dois de seus quadrilheiros e fazia com ele se escondesse."

Sandro Cenoura procura Mané Galinha para formar quadrilha e derrubar Zé Pequeno. Eles se unem e a guerra contra o bando de Zé Pequeno é inevitável. As quadrilhas aumentam e a guerra prolifera com a participação das crianças. Para manter a luta, Galinha começa a praticar assaltos, enquanto a imprensa destaca a guerra das quadrilhas de Cidade de Deus. O caos das quadrilhas em guerra é evidente, e, num dado momento, a narrativa dá uma trégua à guerra e passa a relatar outros crimes paralelos, estando Mané Galinha escondido por uns tempos. Mais tarde, voltando à sua obstinada caçada, Galinha vai à procura de Peninha e Cabelo junto com Fabiano, e acabam matando outro traficante. Aos poucos a guerra se generaliza, transformando Cidade de Deus no lugar mais violento do mundo. Seus soldados se uniformizam e, no auge do conflito, Cidade de Deus é uma praça de guerra. Após ficarem frente a frente, Pequeno atinge Galinha. Ele não morre, mas as matanças continuam na briga pelo poder do tráfico. Calmo é novamente preso e galinha é resgatado no hospital. Aumenta seu desejo de vingança pela morte de seu irmão Gilson. A polícia estava fora e, conforme passava o tempo, os bandidos iam contando suas vitimas. Mais uma vez, após um ataque de nervos, Galinha é baleado; depois, pela terceira vez, em conflito com Calmo e Madrugado, um viciado finge ajudá-lo e o atinge com vários tiros e sua morte é inevitável. O viciado vingava a morte de um irmão." A festa para comemorar a morte de Galinha atravessou três dias, enquanto Lá em Cima tudo era silêncio, ruas desertas, biroscas e lojas comercias fechadas. O Corpo de Galinha foi velado em sua própria casa, sem a presença de bandidos. Seu enterro, em número de pessoas, superou o de Bené e de Salgadinho."

A polícia monta um novo esquema de repressão para Cidade de Deus e uma operação de grande porte é acionada na região. "A insegurança dominava a favela. Até os viciados, antes fregueses bem-tratados porque sustentavam o ganha-pão, passaram a correr riscos de vida."

Enquanto Pequeno jogava Calmo contra Biscoitinho e tramar tomar a boca Lá em Cima, que é de Cenoura, a operação de polícia é escandalizada pelo massacre de um grupo de crianças. Mesmo assim, o cerco aumenta e o sargento Roberval prende Pequeno, mas o solta em seguida após pegar todo o dinheiro e pedir cinqüenta por cento de todo o dinheiro da boca.

Cabelo Calmo e Biscoitinho duelam pelos becos de Cidade de Deus e Calmo é atingido, mas foge com vida. O clima de revolta pela morte das crianças continua, assim como o comando de Sandro Cenoura nas bocas Lá em Cima. A guerra com a polícia faz enorme número de vítimas que são atiradas em lugares afastados. A ex-namorada de Playboy denuncia uma reunião de traficantes, a polícia cerca o local e faz uma chacina. Isso faz com que algumas bocas troquem de dono. "Pequeno deu o azar de ser abordado pelas Polícia Civil e Militar mais seis vezes. Tanto os civis como os militares o extorquiam."

Novamente flagrado com dinheiro, drogas e armas, Pequeno foi julgado e encaminhado ao presídio Milton Dias Moreira, onde passa a integrar a facção que dominava os presídios cariocas. Do presídio, pelo telefone, Pequeno passa as instruções a seu irmão Pinha e continua a comandar o crime, até que paga um suborno e sai do presídio, refugiando-se fora da Cidade de Deus. Cenoura é afastado da favela, mas sempre causando mortes. Cabelo Calmo se apaixona por uma professora e se entrega à polícia por insistência dela e acreditando na justiça. No segundo dia na penitenciária Lemos de Brito é assassinado a facadas por Nervo Duro.

A sucessão dos traficantes se intensifica: Israel é morto por Conduíte, e Biscoitinho, por Lampião. Otávio que era um cocota que pensava em matar todo mundo para ser dono do tráfico, entra para a macumba e se apresenta para a quadrilha da Treze, sob o comando de Tigrinho e Borboletão. Não pede nenhum cargo de hierarquia do tráfico. Ele só queria matar. Marisol, agora taxista, leva três tiros de Zezinho Cara de Palhaço, que é preso.

Enquanto Cenoura vai preso para a Baixada Fluminense, continua a sucessão de bandidos no poder das bocas. Otávio mata Jacarezinho, que estava sabotando a boca de Borboletão e Tigrinho. Ele domina Jacarezinho e faz com que cave a própria cova. Trajado de vermelho e preto, com uma cartola, Otávio é um assassino com requintes de brutalidade inigualáveis. " ...deu só um tiro para depois cortar o corpo de Jacarezinho com o facão. Com a própria cavadeira jogou a terra de volta para o buraco, foi até os pés da figueira mal-assombrada, acendeu sete velas, sentou em cima da cova, retirou um baseado do bolso, acendeu e fumou sem muita pressa." Depois desse crime, Otávio repete o ritual com mais de trinta vítimas e as enterra na mesma cova. É preso por dois anos e passa um tempo como pregador evangélico. Depois casou, teve filhos e jogou a culpa de seus crimes no Diabo. Alegando que fora dominado por uma força maléfica, incontrolável. Mais tarde, porém, voltou. " ...rasgou a Bíblia, queimou o terno com o qual costumava ir aos cultos e foi à boca pedir a Borboletão uma pistola para matar somente policiais."

Messias, o último "herdeiro" do tráfico Lá de Cima, propõe trégua a Borboletão e Tigrinho na Treze. Com isso a paz volta a reinar na favela. Bastiana, a Bá, deixa o tráfico; a nova geração de cocotas continua curtindo a vida; Busca-Pé realiza o sonho de ser artista como fotógrafo; Cara de Palhaço recebe visita de Marisol, que ficara paraplégico por sua causa, e dias depois aparece enforcado na cela.

Pequeno encontra Borboletão, que continuava com a boca dos Apês, e deixa claro que vai voltar. Tinha estado em Realengo. "O bandido tinha sua prepotência renovada e planos para ser novamente o dono de Cidade de Deus, e para isso já tinha planejado com seus parceiros de Realengo um ataque surpresa na Treze logo na primeira semana de seu novo mandato nos Apês, depois atacariam Lá em Cima."

No entanto, na sua volta, "...Tigrinho, que observava atentamente, retirou a pistola da cintura, deu um tiro no abdômen de Pequeno e saiu correndo junto com Borboletão". O bando de Pequeno se entocou nos Apês, Pequeno morreu ao som dos fogos de Ano-novo e eles voltaram para Realengo. Logo após a morte de Pequeno a narrativa se encerra. "Lá na Treze, Tigrinho, bem cedinho, mandou um menino moer vidro, colocá-lo dentro de uma lata com cola de madeira. Depois do cerol feito, passou-o na linha 10 esticada de um poste ao outro. Esperou o cerol secar na linha, fez o cabresto, a rabiola e colocou uma pipa no alto para cruzar com as outras no céu. Era tempo de pipa na Cidade de Deus.

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ANÁLISE DA OBRA "A TEUS PÉS"


A teus pés, de Ana Cristina César

A Teus Pés, de 1982, é o último livro de Ana Cristina César, e único publicado por editora, reúne os três livros anteriores de edição independente: Luvas de Pelica, Correspondência Completa e Cenas de Abril. Retrata com dor e elegância as vivências urbanas e as impressões cotidianas de uma poeta ao mesmo tempo densa e delicada.

Nesta obra, além de utilizar formas que nos remetem a escritas “íntimas”, a autora ousa mais, fragmenta mais, como se fizesse uma verdadeira colagem cifrada de frases vindas de diversos lugares.

O que se tem no fim são textos aparentemente desconexos, cheios de saltos, de versos que parecem não se encaixar. E muita coisa ainda com cara de diário, de correspondência. Resultado: a impressão de que há segredos escondidos nas entrelinhas, símbolos a serem decifrados, silêncios que suspendem o entendimento e aguçam a curiosidade: o que ela está querendo dizer? Entretanto, parece não ser bem essa a pergunta a ser feita. Segundo Ana Cristina, não se trata de fazer uma literatura de entrelinhas. Esses vazios, saltos, silêncios, espaços em branco seriam o que ela define como o “não-dito” do texto literário, algo que difere bastante do que usualmente se entende por “entrelinha”. Acompanhemos Ana Cristina:
“A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (...) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia, em geral, não existe entrelinha. (...) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?”.(16)
Deve-se destacar que, na “poesia marginal” dos anos 70, a autora atualiza dois gêneros usualmente considerados literatura menor: a carta e o diário. Resgata, dessa forma, não só o coloquialismo da linguagem, mas também a profunda interação entre o sujeito lírico e seu leitor implícito. Tal preocupação pode ser observada nesta obra.

A forma de dizer desdizendo, que é, em última instância, uma forma de manipular a linguagem, nos chama a atenção nos textos de Ana Cristina, como neste que abre A teus pés:
Trilha sonora ao fundo (...)
Agora silêncio
(...)
Eu tenho uma idéia.
Eu não tenho a menor idéia.
(...)
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental.
(...)
Esta é a minha vida.
Atravessa a ponte. (CESAR, 1998a, p.35)
Misto de poesia e prosa, um primeiro olhar sobre os textos presentes nesta obra já indica ao leitor que este não está diante de produções que pretendam se ater aos procedimentos da lírica tradicional. Pelo contrário, os textos objetivam redimensionar a produção poética por meio da desconstrução e da reconstrução do cotidiano – transfigurado em literatura – e das formas tradicionais da poesia – pulverizadas em textos que recriam gêneros literários, como já citado.

Na poesia de Ana Cristina César, a tentativa de apreender a fragmentação do sujeito lírico por meio de instantâneos do cotidiano se apresenta como mecanismo de criação de uma grande proximidade entre autora e leitor, uma vez que tenta inserir este último em uma atmosfera de intimidade, a partir da apresentação de acontecimentos que supostamente têm relação direta com a vida daquela que escreve. A exposição do eu não se dá apenas em termos de emoções, sentimentos ou aspirações pessoais, mas constitui procedimento para a escrita literária, em poemas nos quais, reflexivamente, problematiza-se a própria inserção de aspectos pessoais na poesia.

Inserida em seu contexto, a autora também se vê às voltas com a problemática do texto confessional, da autobiografia inscrita nos limites entre a confissão e a literatura”, e faz dos acontecimentos cotidianos e corriqueiros sua principal matéria poética, seu principal ponto de partida para a compreensão da existência e da própria poesia.




Outro poema da obra:

Casablanca

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.

Disponível em: http:// www.passeiweb.com/na_ponta.../livros/.../a/a_teus_pes

PALAVRA DO DIA

PRONTIDÃO

Tema da Semana: ícones da música

Recentemente, com a morte precoce da cantora Amy Winehouse, falou-se muito na “maldição dos 27 anos”, já que, além de Amy, alguns ícones da música faleceram
com a mesma idade, como Kurt Cobain,Jimi Hendrix e Janis Joplin, por exemplo.
Um jovem músico brasileiro nascido em 1910 faleceu devido à tuberculose em 1937, quando copmpletaria 27 anos. Este foi Noel Rosa, um dos ícones do samba. Na canção ‘Filosofia’, Noel trata a sociedade da época, criticando a aristocracia e em contrapartida fazendo referência aos sambistas, considerados “vagabundos”.
““Nesta prontidão sem fim/vou fingindo que sou rico/ pra ninguém zombar de mim””
(Filosofia, Noel Rosa).
No trecho, o termo prontidão designa o estado de estar pronto para realizar algo, mas isso não significa necessariamente que algo vá acontecer.
A expressão “'prontidão sem fim'” remete a uma longa espera.


Disponível em: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=palavradodia

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

05 de Agosto - Dia Nacional da Saúde


Dia 5 de Agosto é o Dia Nacional da Saúde, 
mas não é somente neste dia que se deve cuidar dela.

A saúde resulta de um equilíbrio físico, orgânico e mental do nosso organismo, conquistado no dia-a-dia.

 Esse equilíbrio é adquirido através de vários fatores, como uma boa alimentação à base de frutas, verduras, carboidratos, proteínas, pouca gordura e muita água; um bom descanso; 
alguma atividade física; cuidados com a higiene pessoal; horas de lazer.

O cuidado com a saúde é um hábito que todos devem ter. 

É importante lembrar de nossa saúde diariamente!

Disponível em: http://www.smartkids.com.br/datas-comemorativas/5-agosto-dia-nacional-da-saude.html

PALAVRA DO DIA

INCUBAÇÃO

Tema da Semana: Saúde

O período de incubação de uma doença é aquele entre a invasão do agente infeccioso no corpo e a manifestação dos sintomas causados por ela, na pessoa. Por exemplo, o período de incubação da gripe H1N1, que afetou muitos em 2009, varia de 1 a 7 dias. Já o do vírus HIV pode durar de 1 a 3 meses, em raríssimos casos chegando a um ano. Por esse motivo, exames de detecção das doenças são importantíssimos. Não dá para esperar os sintomas surgirem!

Disponível em: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=palavradodia

ANÁLISE DA OBRA "A CONFISSÃO DE LÚCIO"


A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro

Esta obra foi considerada por José Régio como a obra-prima de entre as novelas de Sá Carneiro, onde estão presentes três de suas obsessões dominantes: o suicídio, o amor pervertido e o anormal avançando até a loucura.

Nesta obra, ao incitar seus personagens na busca de uma transcendência distorcida, Sá-Carneiro cria uma atmosfera de exacerbado lirismo. Capaz de acrescentar um prazeroso sabor ao narrar o inarrável, mesmo no leitor que possui poucas fibras de sensibilidade ele é capaz de produzir um turbilhão interior próximo ao palpitar acelerado do coração quando em êxtase.

A Confissão de Lúcio, publicada pelo poeta em 1914, um ano antes do aparecimento do primeiro número de Orpheu é uma novela que parece apresentar, através da fragmentação, a existência de questões que ficam sem resposta: repetição de silêncios intervalares, espelhamentos intertextuais como forma de dar consistência a essa outra voz, consciente de que tudo aquilo é material com que se constrói a obra de arte, cuja linguagem é plástica e maleável, criadora de um sentido provisório e impossível de fixar.

Foco narrativo

A Confissão de Lúcio é obra narrada em primeira pessoa e o personagem-narrador procura sempre demonstrar o contrário da característica da obra, isto é, apresentar os (simples) fatos a fim de obter credibilidade do leitor, que é o “júri”. Ao modo próximo dos simbolistas, o narrador vai captando as relações mais íntimas do âmbito da percepção, levando esse conjunto de sensações a rever o conceito de realidade e aproximá-la do fantástico.

A narrativa começa do fim para o início, e já na primeira página o próprio narrador demonstra claramente a desilusão que tomou conta de sua vida depois dos acontecimentos que vai narrar, a ponto dos dez anos que passara na prisão por um crime que não cometera parecerem-lhe "uma coisa sorridente". É bom lembrarmos que há uma certa ironia que passa por toda a narrativa, e tal ironia provém do próprio narrador. É como se, o tempo todo, ele estivesse analisando o passado sob os olhos do presente, a fim de dar um tom de maior veracidade aos fatos narrados, porém, sua tentativa é malograda, uma vez que a ironia empregada assume apenas um tom de riso profilático e é totalmente posta por terra no final, pois notamos que o narrador nada mais é do que a vítima confessa delas próprias.

As várias funções exercidas pelo narrador Lúcio na história - ele é ao mesmo tempo personagem narrador e receptor de outras obras - indicam a ambigüidade, inerente à linguagem, em que o significante desliza constantemente sob o significado, tornando impossível o estabelecimento de qualquer sentido definitivo. E também que o reverso (ou o complemento?) da criação é a destruição: Lúcio destrói no fogo sua peça Brasas, Ricardo mata Marta, sua criatura, o final da obra da americana coincide com a sua morte.

O estilo da narrativa tem por objetivo deixar o leitor em constante dúvida (o relato é real ou imaginário?). Inicialmente, os autores optaram pelo mesmo estilo: uma confissão. Essa confissão alcançou o objetivo na novela de Sá Carneiro.

Ele intensifica o caráter documental de sua obra: a novela é apresentada ora como confissão de fatos consumados ora como um diário íntimo.

Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de fatos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.

(...) E são apenas fatos que relatarei. Desses fatos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
(...)

Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverossímil.

(A Confissão de Lúcio - Prólogo)

O protagonista desta narrativa cumpre um destino absurdo que não é possível explicar pela lógica comum: deixa-se prender e condenar por um crime que não cometeu e que afinal não existiu.

Personagens

Com relação às personagens, dentre as várias existentes, entendemos ser o triângulo amoroso formado por Lúcio, Ricardo e Marta, o cerne fundamental que levará à desilusão do autor/narrador no final da narrativa.

Ricardo - o protagonista dos fatos narrados. Trata-se de um poeta que, antes de ser apresentado a Lúcio, é mencionado por várias personagens. Sua marca principal é a incoerência: seu maior problema é que sente-se totalmente estranho à vida normal, ao mesmo tempo que sente uma irresistível atração por ela.

Lúcio Vaz - narrador-personagem, jovem escritor português, é a duplicação do eu de Ricardo, ou seja, o seu outro, o grande conflito que marca toda a obra de Sá-Carneiro.

Marta - retratada como uma mulher belíssima, mas todo um mistério a envolve durante toda a parte da narrativa em que aparece. É esposa de Ricardo, porém Lúcio se apaixona por ela. Os dois têm uma relação extra-conjugal que, para Lúcio, parece óbvia demais para Ricardo não perceber. Lúcio parece ter certeza de que Ricardo sabe de sua relação, mas acha muitíssimo estranho que este nada faça. Em dado momento, Marta deixa de vir à casa de Lúcio e passa a encontrar-se com Sérgio Warginsky, outro freqüentador da casa de Ricardo, o que deixa Lúcio horrorizado.

Para falar de Marta, é necessário ter em mente esta questão do outro, pois esta é a explicação mais plausível do desenrolar final da narrativa, uma vez que é ela quem acende o estopim das ações que levarão à desilusão em relação à vida do autor/narrador.

Enredo

Num primeiro momento a história de desenvolve na Paris de 1895. O narrador, Lucio, nos conta do meio artístico e destaca-se nessa narração a figura de Gervásio Vila Nova: escultor, dono de uma conversa envolvente, embora fosse algo “disperso, quebrado, ardido”. Destaca-se ainda, nesse momento, a admiração que vai desenvolver por uma misteriosa americana, mulher rica e linda: “Criatura alta, magra, de um rosto esguio de pele dourada - e uns cabelos fantásticos, de um ruivo incendiado, alucinante.” Por meio dela fica sabendo da chegada de Ricardo Loureiro, poeta cuja obra era muito admirada.

Numa festa promovida por Gervásio, Lúcio é apresentado a Ricardo. Logo da primeira conversa vai se desenvolver uma grande amizade e admiração entre ambos.

A admirada americana ruiva desaparece de cena, Gervásio também encerra aqui sua participação no enredo, uma vez que retorna a Portugal. Enquanto as conversas com os outros tinham um interesse voltado para o intelectual, o conhecimento, as feitas com Ricardo pareciam atingir a alma de Lúcio. Desse amizade nasce uma relação que pode ser representada como sendo uma projeção de Lúcio sobre o outro, Ricardo. Pressente-se um tom de homossexualidade: “Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.”

Ricardo vai para Lisboa, ficam os amigos separados por um ano, trocam-se cinco cartas durante esse período. Em dezembro de 1897 Ricardo retorna a Paris: “As suas feições haviam-se amenizado, acetinado - feminilizado, eis a verdade.” Lúcio sabia, no entanto, que Ricardo havia se casado. Num jantar Lúcio é apresentado a ela, Marta: “Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural (....) Cheguei a ter inveja de meu amigo.”

Os três ficaram amigos inseparáveis. Participavam em reuniões de amigos intelectuais e artistas, e nessas se destacava a figura de Sérgio Warginsky, músico russo, que no entanto, vai criar uma impressão negativa e de quase ódio em Lúcio.

Envolvido com sua produção literária, por vezes, Ricardo deixava Lúcio a sós com Marta. Entre situações às vezes constrangedoras que beiravam o limite da amizade, Lúcio começa a se sentir envolvido pela figura de Marta. Até que, enfim, Marta torna-se amante de Lúcio. Lúcio acaba se apaixonando por Marta, apesar de continuar a amizade com Ricardo. Estranhamente Lúcio atenta para alguns detalhes da fala de Ricardo, como quando o amigo lhe diz que ao se observar ao espelho não mais se via: “Ah! Não calcula o meu espanto... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Na foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.”

Por outro lado, Marta também parecia a Lúcio como uma mulher irreal: “sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.” Nada confirmava sua existência além do perfume penetrante que ficava no leito, precisava não mais provar o amor, mas a existência real dessa misteriosa mulher que tanto se entregava a ele e que traía com intensidade o amigo: “As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, às vezes, querendo-as recordar por força, as únicas que conseguia suscitar em imagem eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.”

Depois de algum tempo, Marta torna-se fugidia, demora-se menos com Lúcio, os encontros tornam mais difíceis. Lúcio começa a desconfiar de Marta e desenvolve um sentimento de ciúme. Nas tardes em que apenas encontra o amigo Ricardo, começa a procurá-la desesperadamente. Uma vez seguindo Marta, descobre que ela fora ao apartamento de Sérgio Warginsky. Por essa época, Lúcio terminara uma peça de teatro e começa a andar pelas ruas, em uma dessas andanças encontra Ricardo, este lhe faz uma estranha afirmação, de que Marta é uma criação de Ricardo: “Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma,. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós dois... (...) E ao possuí-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te deveria dedicar.”

Nesta cena alucinante, Ricardo mata Marta, e então Lúcio descobre que um mistério envolvia essa morte: Marta folheava um livro, em pé, ao fundo da casa. Ricardo dá-lhe um tiro à queima roupa:

“E então foi o Mistério... o fantástico Mistério da minha vida...

Ó assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta - não! - era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés - sim, aos meus pés! - caíra o seu revolver ainda fumegante!...”

Marta desaparecera, como uma ilusão, uma névoa.

Disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta.../a_confissao_de_lucio

ANÁLISE DA OBRA "A CAPITAL FEDERAL"


A Capital Federal, de Artur Azevedo

O autor de A Capital Federal foi homem de espantosa atividade intelectual, necessária, como ele próprio afirmou, por ter encargos de família e ser a literatura o seu ganha-pão. Tornou-se assim um escravo da pena, tanto na imprensa como produzindo peças de teatro, que somaram ao todo cerca de 200 títulos. Foi um batalhador que tentou fazer surgir o teatro nacional, incentivando incansavelmente a encenação de obras brasileiras.

No momento de escrever suas histórias, na maioria das vezes, tão habituados ao ritmo da linguagem teatral estavam os ouvidos do escritor que se podem encenar com a maior facilidade muitos de seus contos. A um deles o autor chegou até a chamar de conto-comédia -Como eu me Diverti.

Em perfeita consonância com o gosto do tempo, Artur Azevedo quase sempre entremeava suas peças ou finalizava-as com diversas composições, para serem cantadas e/ou dançadas pelos artistas. Todas as suas revistas de ano, burletas e operetas estão repletas de versos para esse fim. São cantos, canções, concertos, duetos, duetinos, quartetos, quintetos, sextetos, romanzas, romances, coplas, tangos, marchas, mazurcas, zarzuelas, jongos, barcarolas, valsas, rondós-valsas, lundus, coros e até contos, onde o estudioso da música popular do século passado no Brasil encontrará campo variado para pesquisas sobre sua evolução e interação com músicas importadas, num momento em que rareavam, no setor, valores nacionais.

Entre as cinco burletas está a mais reencenada de todas e até transformada em filme, em 1923, por Luís de Barros, A Capital Federal. Nesse texto, o burlesco comparece de corpo inteiro, dando-nos uma visão panorâmica da sociedade carioca da belle époque, com as cortesãs, as cocotes, as mulatas falantes, os cafés-concerto, as músicas alegres, todas as liberalidades e os desfrutes da recém-criada metrópole republicana, em que se deslumbrou o tradicionalismo provinciano.


Disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos.../2

ANÁLISE DA OBRA "BOM CRIOULO"


Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha


O romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, faz parte do Realismo e do Naturalismo. A história de paixão e tragédia não é produto de fantasia romântica, mas baseada num fato real que escandalizou o Rio de Janeiro no século XIX.

Caminha constrói a partir de um fato verídico, uma ficção forte, ousada, muito atual até os dias de hoje. Fez isso para chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava.

Bom-Crioulo, publicado em 1895, é dividido em 12 capítulos, onde a ação se passa na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro. Destacam-se o espaço aberto, normalmente dias claros e quentes, o mar aberto, e o espaço fechado do quartinho de Amaro.

Boa parte da força e da eficácia de Bom-Crioulo está no manejo lúcido que o autor faz desses conflitos, escolhendo o quê, quando e como contar deste verdadeiro enredo de notícia de jornal sensacionalista. A narrativa é simples e direta, mas tem as suas manhas: não entrega o jogo facilmente, cria suspenses, vai e volta no tempo, de modo a dar a cada momento, a cada situação, a sua atualidade e a sua história, o seu desenvolvimento próprio. Assim, o enredo central se desdobra em alusões a muitas outras histórias; e o dia-a-dia do século XIX brasileiro se insinua a cada passo, fazendo ecoar as falas e as ações das personagens centrais.

A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o expectador que registra a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma supervalorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional.

Foco narrativo

Narrado em 3ª pessoa, por narrador onisciente, percebe-se que as inúmeras descrições que aparecem no romance, condizentes com a estética naturalista que privilegia a observação meticulosa dos fatos, buscam não se confundir com a história, nem com as personagens.

Preso aos ideais do escritor naturalista — exatidão na descrição, apelo à minúcia e culto ao fato — o narrador conta a história de modo linear, gradativo, utilizando-se de uma linguagem clara, direta, objetiva, com poucos objetivos. O que será importante são os fatos narrados e não a opinião que se pode ter sobre eles. Não há, portanto, da parte desse narrador, qualquer julgamento moral das personagens.

A história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que vão montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.

Temática

O tema principal é a dificuldade do amor homossexual, centrado na relação entre o negro Amaro e o jovem e bonito Aleixo. Faz presente também o tema da mulher madura que deseja um amante jovem. A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do “vício”. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material do romance.

Este tema do romance, o homossexualismo, manifesto na construção do triângulo amoroso, é tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido.

O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, conseqüentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário.

Outro tema é a problemática da vida dos marinheiros, que ficam a maior parte do tempo longe da terra e de mulheres, o sofrimento dos castigos corporais impiedosos e rigorosos. Este é a temática que se entrelaça com o tema central.

Tempo e espaço

O romance se passa em dois espaços: no mar, a bordo de uma corveta, e na Rua da Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos fins do século XIX. Os dois lugares são descritos em seus aspectos mais degradantes e negativos, ressaltando a miséria daqueles que aí vivem.

A abertura do romance se faz com uma detalhada descrição da corveta, local inicial da ação.

Por meio de uma descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que ajudam a compor o ambiente externo, percebe-se como o autor naturalista se debruça sobre o meio que terá um papel decisivo no comportamento das personagens.

O ambiente de bordo é marcado pelo trabalho duro e por uma vida sem privacidade, o que possibilita a eclosão das mais diversas perversões. O ajuntamento de homens favorecia a promiscuidade entre seres que vivenciam a solidão da reclusão da vida no mar e que, sobretudo, sentiam a falta de liberdade, vítimas de um sistema duro e cruel - a vida na Marinha:

Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição, passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! Vida, vida!... Escravo na fazenda, escravo a bordo, escravo em toda parte... E chamava-se a isso servir á Pátria!

Por esse trecho, pode-se notar uma crítica implícita a Abolição dos Escravos que parece não passar de uma ilusão, já que os homens provenientes das camadas mais baixas da população continuam a ser explorados.

Num segundo momento, a história se desloca para a terra, mais precisamente para um quarto na Rua da Misericórdia, onde Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no navio, vivem o ápice e o declínio de seu relacionamento.

Ao retratar o espaço urbano, Adolfo Caminha fala a respeito de um tipo de moradia muito comum no Rio de Janeiro, durante o final do século XIX: as habitações coletivas. Os habitantes dessas moradias eram brancos, mulatos e mestiços, sempre pessoas exploradas. Ao redor dessas habitações, há a presença de negociantes portugueses em ascensão, como o açougueiro que sustenta D. Carolina, e que se aproveitam, de algum modo, da miséria dessas pessoas.

Desse modo, o comportamento das personagens está condicionado pela pobreza do ambiente que as circunda e que, por sua vez, é decorrente do momento histórico por que passava o Brasil, durante o Segundo Reinado.

Personagens

Em Bom-Crioulo, Caminha constrói com segurança e coerência o personagem Amaro, mulato dominado pela paixão homossexual, que o leva para caminhos sadomasoquistas à perversão e finalmente ao crime. O autor soube manejar as cenas e personagens com naturalidade.

As personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de alguma profundidade psicológica. Muito próximas dos tipos, também chamados de personagens planas, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmam as poucas características que as definem.

Amaro: protagonista, ex-escravo convocado para a marinha.Trata-se de um homem muito forte, com trinta anos de idade e que não conseguiu realizar-se sexualmente com as mulheres. Duas tentativas deram-lhe grande decepção e o deixaram frustrado. Só conseguiu consumar o ato com o jovem Aleixo. Apresenta certa profundidade psicológica, mas que é totalmente envolvido por sentimentos e instintos que o dominam, impedindo-o de perceber com clareza a situação conflituosa que vive. Algumas vezes, surgem percepções esparsas, mas nada suficientemente forte para modificar o destino do negro, movido pela paixão. Por um lado, Amaro é extremamente forte fisicamente. Sua força provém do trabalho escravo e depois do trabalho na Armada, em que se engajara após ter fugido da fazenda. Os castigos físicos que lhe foram impingidos, tanto pelo feitor quanto a bordo, tornaram-lhe resistente e lhe deram a energia de um animal brioso. A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do romance, por meio da descrição de uma cena em que Amaro está sendo punido com a chibata: — Uma! cantou a mesma voz. — Duas!.., três!...

Aleixo: grumete, belo rapaz de olhos azuis, que embarca no sul. Tem quinze anos e mexe sexualmente com Amaro. Cede às investidas e caprichos do crioulo, mas quando aparece ocasião troca-o por uma mulher. Isso o leva ser assassinado por Amaro, por causa do ciúme. Aleixo surge desde o princípio como o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte — será assim com Amaro e com Carolina. O ar de submissão de Aleixo vai transfigurando-se, ao longo da narrativa, numa espécie de esperteza camaleônica. Nada sabemos sobre seu passado, a não ser que era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diferente daquele de sua origem, e que lhe propicia, acima de tudo, favores e proteção.

D. Carolina: amiga e rival de Amaro. É amiga de Amaro por tê-lo salvo em um assalto e inimiga por depois conquistar o namorado do crioulo. D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito, Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. D. Carolina revela-se, desde o inicio, uma mulher de negócios, cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também lucravam com ela. No entanto, vive só.

Herculano: marinheiro dotado de certa melancolia. Relaxado, tinha as unhas sujas. Evitava a companhia dos outros. Foi preso e castigado por ter sido apanhado se masturbando.

Agostinho: o guardião. Homem de grande estatura, reforçado, especialista em dar chibatadas. Ama sua profissão, por isso permanecia a maior parte do tempo a bordo.

Santana: marinheiro que sofreu castigo por ter brigado com Herculano. Era gago, chorava com facilidade e era manhoso.

Enredo

A obra Bom-Crioulo não padece das inverosimilhanças de A Normalista, do mesmo autor. Mais denso e enxuto, apresenta um ótimo retrata da vida de marinheiros durante a 2ª metade do século XIX, no Rio de Janeiro. A personagem principal, o mulato Amaro, é bastante coerente em sua passionalidade. Vários episódios do romance também refletem a própria vivência do autor a bordo de navios, registrando a aspereza da vida no mar, da brutalidade dos castigos corporais, já denunciados por Caminha em seu tempo de estudante.

O romance realça pela originalidade da situação dramática: dois marinheiros - Amaro, apelidado o Bom-Crioulo, um “latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre... com um formidável Sistema de músculos” e Aleixo “um belo marinheiro de olhos azuis” - brutalizados e solitários pela vida a bordo de um navio, afeiçoam-se e entretêm relações homossexuais. Ao desembarcarem na cidade do Rio de Janeiro, vão viver em um cômodo alugado por uma portuguesa, ex-prostituta, D. Carolina. Mas o idílio amoroso entre Amaro e Aleixo é interrompido pelo dever de voltar ao mar:

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o Outro: completavam-se /.../ Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio.

Disponível em: https://singrandohorizontes.wordpress.com/2011/02/22/adolfo-caminha-analise-da-obra-%E2%80%9Cbom-crioulo%E2%80%9D/

ANÁLISE DA OBRA "ESPUMAS FLUTUANTES"


Espumas Flutuantes, de Castro Alves

Análise da obra

Único livro de poesia publicado pelo autor em vida. Temática social e política inspirada em visão libertária. De vida breve e trágica, o poeta baiano foi um grande nome do romantismo.

Publicado em 1870, Espumas Flutuantes é a única obra de Castro Alves que teve a edição revisada pelo autor. O título sugere transitoriedade, pois o poeta sente que seu fim está próximo.

O volume contém 53 poemas lírico-amorosos e poemas de caráter épico-social.

Ao tratar do amor, Castro Alves refere-se não só à mulher de forma idealizada, mantendo as tradições do Romantismo, mas distoa do movimento ao buscar o amor carnal, real e tingido com as cores do erotismo - "Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde... / Não me apertes assim contra teu seio." (in "Boa-noite"). Em Espumas Flutuantes, Castro Alves retoma o tema do amor em sua sensualidade e em sua realização. Transformando o sentimento amoroso em pleno sentido de prazer e sofrimento, descreve cenas oportunas da paixão humana. Em O adeus de Teresa, em Onde estás? e em É tarde!, por exemplo, percebemos a plenitude do lirismo de Castro Alves.

Ainda dentro das produções líricas, o poeta refere-se à natureza que, em seus versos, se torna vibrante e concreta, emoldurada por um sistema dinâmico de imagens que geralmente são tomadas de aspectos grandiosos do universo - o mar, os astros, a imensidão ou o infinito.

Devem ser destacados os seus versos de cunho existencial que ganham plenitude quando apregoam o gozo e os prazeres da vida - "Oh! eu quero viver, beber perfumes / Na flor silvestre que embalsama os ares (...) Morrer... quando este mundo é um paraíso, / E a alma um cisne de douradas plumas" (in "Mocidade e Morte") -, marcando novo momento da literatura romântica no Brasil que, até então, embebia-se no pessimismo da geração do "mal do século".

A poesia lírica de Castro Alves, nas duas espécies principais, a amorosa e a naturalista, está representada em Espumas Flutuantes. Nesse livro, ao lado de traduções e paráfrases de Byron, Hugo, Musset, figuram também composições de caráter épico-social, como O Livro e a América, Ode ao Dous de Julho, Pedro Ivo, paradigmas do condoreirismo do poeta.

O mesmo já não acontece nos poemas em que o poeta registra êxtases e desalentos amorosos: Hebréia, Boa Noite, bem como o ciclo inspirado por Eugênia Câmara, ao qual pertencem entre outros, O Gondoleiro do Amor, Hino ao Sono, É Tarde. Em tais poemas, aparado das demasias verbais, o verso se faz sugestivo e as metáforas naturais, para expressarem a experiência amorosa em sua plenitude carnal e sentimental, plenitude que, entre os nossos românticos, Castro Alves foi o único a ostentar.

Destacam-se ainda, na pauta lírica, os momentos introspectivos de dúvida e fatalismo em face da existência (Mocidade e Morte) e, sobretudo, os de exaltação perante os espetáculos da Natureza, que, ajudado por uma sensibilidade eminentemente plástica e visual, o poeta fixou em belos quadros paisagísticos, que antecipam certa linha formal do Parnasianismo (Sub Tegmine Fagi, Aves de Arribação).

Estilo

Grandiloqüente, linguagem ornamental, pontuação abundante, escolha vocabular cuidada. Utiliza quase todas as figuras de linguagem, como: metáfora, comparações, hipérboles, assonâncias, apóstrofes. Busca a grandiosidade poética, chegando aos exageros e ao mau gosto. Um traço marcante é a oralidade e a visível intenção de dizê-la para grandes platéias.

Poesias de destaque:

1. O Gondoleiro do Amor / Laço de Fita / Sub Fegmine Fagi - Tom platônico e contemplativo
2. Adeus de Teresa / Adormecida / Boa Noite - Lírico-amorosas, tom erótico e sensual.
3. Ode ao Dous de Julho - Poesia social e crença na liberdade.
4. Jesuítas - Poesia doutrinária.
5. Mocidade e Morte / Ahasverus e o Gênio / O Hóspede / A Boa Vista - Poesias de reflexão existencial.
6. O Livro e a América - Louvor ao progresso da América

Não há métrica definida, mas prefere os versos decassílabos. As estrofes são bem livres. Suas poesias têm um lírico ascendente, cujo final é uma apoteose ou uma explosão de seus sentimentos.

Temas e formas

1. O amor e a mulher

Contrapondo-se ao amor irrealizado e não-correspondido que vogava até então, Castro Alves acrescenta¬lhe a realização plena.

Pelas páginas de Espumas Flutuantes, vemos passar indícios de paixão integral, como a sensualidade de Adormecida, o ciúme de O Adeus de Teresa, e um emaranhado de seios, colos, cabelos e perfumes, que sensualizam os perfis femininos de Castro Alves.

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

(Adormecida)

Quando voltei.., era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
E ela arquejando murmurou-me. “Adeus!”

(O Adeus de Teresa)

Caminham juntas a mulher-anjo, a amante e a prostituta, imagem assumida pela amada que lhe causa decepções.

Eras a estrela transformada em virgem!
Era um anjo, que se fez menina!
Era a estrela transformada em virgem.

(Murmúrios da Tarde)

Mulheres que eu amei!
Anjos louros do céu! virgens serenas!
Madonas, Querubins ou Madalenas!
Surgi! Aparecei!

(Fantasmas da Meia-Noite)

Curiosamente, chega a comparar espécies de amor em Os Três Amores, no qual aparecem o amor espiritual e místico de Tasso (que ele retoma em Dulce), o autor voluntarioso de Romeu (que ele volta a abordar em Marieta) e o amor não-convencional e vaidoso de D. Juan (que também aparece em Bárbora).

Certo... serias tu, donzela casta,
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústia, que o meu ser arrasta!...

(Dulce)

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...

(Marieta)

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio — um beijo... — no beijar — um hino;

(Bárbora)

2. A morte

Atingido desde cedo pela moléstia que lhe acabaria com a vida, Castro Alves nos mostra uma grande preocupação com a morte, encarada como amargurada expectativa face à sua pouca idade e um empecilho às grandes realizações de que se julga capaz.

Oh! eu quero viver; beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh ‘alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n ‘amplidão dos mares.
No seio de mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
- Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
E eu sei que vou morrer.. dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu ‘inda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo - que vaga sobre o chão de morte,
Morto - entre os vivos a vagar na terra.

(Mocidade e Morte, anteriormente O Tísico)

Um dos autógrafos traz à margem: “No sótão, ao toque da meia-noite, quando o peito me doía e um pressentimento me pesava n’alma”. A data é “Recife, 7 de outubro de 1864”. Castro Alves tinha então 17 anos. Observe que, apesar da presença da morte, este poema é um hino de amor à vida, aos prazeres.

3. A Natureza

Castro Alves fundamenta suas imagens e metáforas nos aspectos grandiosos da natureza (infinito, oceano, deserto etc.) e é freqüente a alusão às aves de grande porte (o condor, a águia, o albatroz).

Ao país do ideal, terra das flores,
Onde a brisa do céu tem mais amores
E a fantasia - lagos mais azuis...
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o vôo d’águia não se eleva...
Abaixo - via a terra - abismo em treva!
Acima - o firmamento - abismo em luz!

(O Vôo do Gênio)

4. A consciência da própria grandeza

É freqüente a alusão ao papel do poeta, à predestinação para as grandes causas, à missão de reformar a sociedade pela palavra poética.

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio,
Vejo além um futuro radiante:
Avante! - brada-me o talento n ‘alma
E o eco ao longe me repete - avante! -
O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a Glória!
Após - um nome do universo n’alma,
Um nome escrito no Panteon da História.

(Mocidade e Morte)

5. A liberdade

Não! Não eram dois povos que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir - em frente do passado,
A Liberdade - em frente à Escravidão,
Era a luta das águias - e do abutre,
A revolta do pulso - contra os ferros.
O pugilato da razão - contra os erros
O duelo da treva - e do clarão!...

(Ode ao Dous de Julho)

Observe a freqüência das antíteses.

6. A crença no progresso

Ao contrário da tendência regressiva, ressentida e passadista das gerações anteriores, que viam com desconfiança o progresso, Castro Alves, típico representante da burguesia liberal progressista, vê com entusiasmo a chegada da locomotiva, da instrução, do livro.

Oh! Bendito o que semeia
Livros, livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n ‘alma
É germe - que faz a palma.
É chuva -que faz o mar
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse rei dos ventos
Ginete dos pensamentos
Arauto da grande luz!...

(O Livro e a América)

7. A poesia participante

Aqui, o ideal republicano:
República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta
Que beija a fronte ao Tabor!
Deus! Por qu‘enquanto que o monte
Bebe a luz desse horizonte,
Deixas vagar tanta fronte,
No vale envolto em negror?!

(Pedro Ivo)

(Pedro Ivo foi herói da Revolução Praieira, e símbolo do ímpeto revolucionário para os jovens de seu tempo.)

Aqui, o “povo no poder”:

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor;
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos,
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.

(O Povo no Poder)

Observe neste texto, e no anterior, as alusões ao condor. Este último poema é dos mais típicos de Castro Alves e inspirou música de carnaval de Caetano Veloso e uma paródia irônica de Carlos Drummond de Andrade:

“A PRAÇA! A PRAÇA É DO POVO!”

Não, meu valente Castro Alves, engano seu.
A praça é dos automóveis. Com parquímetro.

(Carlos Drummond de Andrade)

Disponível em: http://www.professorpaulinho.com.br/Resumos_de_Livros/PR/Espumas.htm

OBRAS LITERÁRIAS PARA O VESTIBULAR 2012 – UEL

Não custa relembrar quais são as obras literárias indicadas para o vestibular de 2012 da UEL

1- Poesias selecionadas - Gregório de Matos
2- Espumas flutuantes - Castro Alves
3- Bom-Crioulo - Adolfo Caminha
4- A capital federal - Artur Azevedo
5- A Confissão de Lúcio - Mario de Sá-Carneiro
6- Contos gauchescos - João Simões Lopes Neto
7- As melhores crônicas de Raquel de Queiroz - Raquel de Queiroz
8- A teus pés - Ana Cristina César
9- Cidade de Deus (2ª edição) - Paulo Lins
10- O outro pé da sereia - Mia Couto

Mudanças no Vestibular da UEL 2012

Olá Pessoal!

A UEL anunciou em comunicado oficial mudanças nas disciplinas das provas de CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS e REDAÇÃO, ambas na 2ª fase.

A 1ª fase, CONHECIMENTOS GERAIS, continuará com 60 questões interdisciplinares e objetivas (alternativas).

Uma grande mudança é na REDAÇÃO.

Atualmente, o aluno precisa escrever um texto Dissertativo (argumentativo ou expositivo), Carta ou Narração. O tema é escolhido entre os 3 fornecidos e o aluno deve escrever um texto de 20 a 25 linhas sobre o tema ou proposta escolhida.

A partir de 2012, o aluno terá que escrever sobre todas as propostas ou temas fornecidos pela banca, ou seja, o aluno terá de escrever os 2 a 4 gêneros textuais, podendo ser Carta, Relato, Notícia, Reportagem, Resposta, e mais outros 7 gêneros textuais.

Outra grande mudança no 2º dia de provas: atualmente, a Prova de CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS é composta por 40 questões, sendo 20 questões de cada uma das disciplinas específicas escolhidas pelos colegiados dos cursos (Portugûes, Matemática, História, Geografia, Biologia, Física, Química, Filosofia, Sociologia, História da Arte).

Para o ano de 2012, a UEL anunciou que a prova terá 3 disciplinas específicas a serem escolhidas pelos colegiados dos cursos, e as provas contarão com 12 questões DISSERTATIVAS (onde as respostas devem ser escritas pelos alunos) para cada disciplina específica, podendo, cada questão, ter 2 afimações (ex: Questão 1 → a) ... b) ... ).

As específicas ainda não foram anunciadas, mas uma dica para quem quer se antecipar um pouco é estudar as provas de Redação da UEM e as questões dissertativas das 2ª fases da FUVEST (USP) e COMVEST (Unicamp).

Portanto, preparem-se!! Desejamos a todos um ótimo vestibular!!!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

PALAVRA DO DIA

INSALUBRE

Tema da Semana: Saúde

Insalubre é qualquer circunstância que possa comprometer a saúde das pessoas. Um local sujo e mal conservado, uma rua sem saneamento básico e a ingestão de água contaminada... Todas essas são condições insalubres de vida.
É tudo aquilo que não é saudável,
que pode desencadear doenças
se houver contato.

“Foi constatado também que os pacientes convivem com banheiros insalubres e inapropriados para o uso.“ (G1, 15/05/2011)


Disponível em: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=palavradodia

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

LOS NIÑOS APRENDEN LO QUE VIVEN


Contribuição da professora Izabel do curso de Espanhol - CELEM

PALAVRA DO DIA

CONVALESCENÇA

Tema da Semana: Saúde

Após alguma cirurgia ou doença grave, é importante que se passe por um período de convalescença. Trata-se do tempo necessário para que se recupere a saúde e as forças. Uma alimentação adequada e o mínimo de esforço são imprescindíveis durante a convalescença.

“Após sua ida ao centro hospitalar, que durou quase duas horas, Berlusconi voltou para a residência, na localidade de Arcore, onde permaneceu durante sua convalescença. “ (G1, 02/01/10)

Disponível em: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=palavradodia

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PALAVRA DO DIA

REIMOSO

“O que não mata engorda”.
Quem nunca ouviu esse famoso ditado popular? Quando seguido fielmente, o ditado, que pode ser entendido como uma motivação para não deixar de comer algo, pode acabar prejudicando a saúde. Comidas com muita gordura, ao serem consumidas em exagero, são reimosas. Outros casos reimosos são: fumar, não praticar exercícios físicos, tomar bebidas alcoólicas em excesso etc. O adjetivo ‘reimoso’ designa aquilo que faz mal à saúde.


Disponível em: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=palavradodia

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PALAVRA DO DIA

PERICLITANTE

Tema da Semana: Saúde

Certo dia, uma menina queria ir para a rua brincar, mas a chuva fina de inverno fez a mãe proibi-la de sair. “Filha, me entenda, você já está tossindo, já está com a saúde periclitante.” “Poxa, mãe, eu nem sei o que essa palavra significa, não posso estar com isso. Me deixa sair, por favor!!” “Pois na escola não te ensinaram? Assunto encerrado, você não vai sair porque a sua saúde pode periclitar ainda mais. ” A menina se trancou no quarto triste e confusa e foi direto ao dicionário: periclitante é aquilo que, de alguma forma, corre perigo.

Disponível em: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=palavradodia

01 de Agosto - Dia Nacional do Selo




O motivo desta comemoração se deve a publicação do primeiro selo no Brasil, em 1843 - a pequena estampilha que resolveu o problema mundial das correspondências.

 Houve épocas em que as cartas eram pagas no destino e se o destinatário não pudesse pagar,
 a correspondência era devolvida.

O Brasil lançou seu primeiro selo em 1843 - a famosa série Olho-de-boi -
 e foi o segundo país do mundo a emitir selos.

Seguiram-se os selos conhecidos como Inclinados (1844), Olhos-de-cabra (1850) 
e os Olhos-de-gato (1854).

Disponível em: http://smartkids.com.br/datas-comemorativas/1-agosto-dia-do-selo.html

DATAS COMEMORATIVAS DO MÊS DE AGOSTO

01 • Dia Nacional do Selo
03 • Dia do Tintureiro
03 . Dia do Capoeirista
05 • Dia Nacional da Saúde
08 • Dia do Pároco
11 • Dia da Televisão
11 • Dia do Advogado
11 • Dia do Estudante
11 • Dia do Garçom
11 . Dia Internacional da Logosofia
11 . Dia dos Advogados
12 • Dia Nacional da Artes
13 • Dia do Economista
14 . Dia do Cardiologista
14 . Dia dos Pais
15 • Assunção de Nossa Senhora
15 • Dia da Informática
15 • Dia dos Solteiros
16 . Dia do Filósofo
19 • Dia do Artista de Teatro
19 • Dia Mundial da Fotografia
20 . Dia dos Maçons
22 • Dia do Folclore
22 . Dia do Supervisor Escolar
23 • Dia da Injustiça
24 • Dia da Infância
24 • Dia dos Artistas
24 • Dia de São Bartolomeu
25 • Dia do Feirante
25 • Dia do Soldado
27 • Dia do Corretor de Imóveis
27 • Dia do Psicólogo
28 • Dia da Avicultura
28 • Dia dos Bancários
29 • Dia Nacional do Combate do Fumo
31 • Dia do Nutricionista

Disponível em
http://www.arteducacao.pro.br/comemorativas.htm